A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Investigação Sobre o Entendimento Humano – David Hume

Editora: Nova Cultural
ISBN: 978-85-1300-852-2
Consultoria: João Paulo Gomes Monteiro
Tradução: Leonel Vallandro
Opinião: **
Páginas: 352 
 
     “O caminho da vida, o mais agradável e o mais inofensivo, passa pelas avenidas da ciência e do saber; e, quem quer que possa remover quaisquer obstáculos desta via ou abrir uma nova perspectiva, deve ser considerado um benfeitor da humanidade.”


     “O raciocínio exato e justo é o único remédio universal adequado a todas as pessoas e aptidões, o único capaz de destruir a filosofia abstrusa e o jargão metafísico que, mesclados com a superstição popular, se tomam, por assim dizer, impenetráveis aos pensadores descuidados e se afiguram como ciência e sabedoria.”


     “A primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano, que não apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem, mas também nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar formas e aparências incongruentes não causam à imaginação mais embaraço do que conceber os objetos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num só planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante às regiões mais distantes do Universo, ou mesmo, além do Universo, para o caos indeterminado, onde se supõe que a Natureza se encontra em total confusão. Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição.
     Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, pois o sentimento que temos de nós mesmos nos permite conceber a virtude e podemos uni-la à figura e forma de um cavalo, que é um animal bem conhecido. Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Ou melhor, para expressar-me em linguagem filosófica: todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas.
     Para prová-lo, espero que serão suficientes os dois argumentos seguintes. Primeiro, se analisamos nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos ou sublimes que sejam, sempre verificamos que se reduzem a ideias tão simples como eram as cópias de sensações precedentes. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem mais distantes desta origem mostram-se, sob um escrutínio minucioso, derivadas dela. A ideia de Deus, significando o Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito, quando aumentamos indefinidamente as qualidades de bondade e de sabedoria. Podemos continuar esta investigação até a extensão que quisermos, e acharemos sempre que cada ideia que examinamos é cópia de uma impressão semelhante.”


     “Como o homem é um ser racional e está continuamente à procura da felicidade, que espera alcançar para a satisfação de alguma paixão ou afeição, raramente age, pensa ou fala sem propósito ou intenção. Sempre tem algum objeto em vista; embora às vezes sejam inadequados os meios que escolhe para alcançar seu fim, jamais o perde de vista e nem desperdiça seus pensamentos ou reflexões quando não espera obter nenhuma satisfação deles. Em todas as composições geniais é, portanto, necessário que o autor tenha algum plano ou objeto; e embora possa ser desviado deste plano pela impetuosidade de seu pensamento, como numa ode, ou omiti-lo descuidadamente, como numa epístola ou num ensaio, deve aparecer algum fim ou intenção em sua primeira composição, senão na composição completa da obra. Uma obra sem um desígnio se assemelha mais a extravagâncias de um louco do que aos sóbrios esforços do gênio e do sábio.”


     “Quando se pergunta: qual é a natureza de todos os nossos raciocínios sobre os fatos? A resposta conveniente parece ser que eles se fundam na relação de causa e efeito. Quando se pergunta: qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões sobre essa relação? Pode-se replicar numa palavra: a experiência. Mas, se ainda continuarmos com a disposição de esmiuçar o problema e insistirmos: qual é o fundamento de todas as conclusões derivadas da experiência? Esta pergunta implica uma nova questão que pode ser de solução e explicação mais difíceis. (...)
     Reconheço que, quando alguém conclui que um argumento não existe porque escapou de sua investigação, é acusado de imperdoável arrogância. Reconheço também que, apesar de várias gerações de sábios se terem dedicado infrutiferamente pesquisando um objeto, seria, talvez, precipitado concluir afirmando que ele ultrapassa toda compreensão humana. Mesmo se examinássemos todas as fontes de nosso conhecimento e concluíssemos que são inadequadas para um tal assunto, pode ainda perdurar a suspeita de que a enumeração não é completa ou o exame não é exato. Mas, em relação ao tema que nos ocupa, há algumas reflexões que parecem remover toda acusação de arrogância ou a suspeição de um equívoco.
     Certamente, os camponeses mais ignorantes e estúpidos — até os bebês e as bestas irracionais — se aperfeiçoam pela experiência e adquirem conhecimento das qualidades dos objetos naturais, observando os efeitos que resultam deles. Quando uma criança sentiu a sensação da dor ao tocar a chama de uma vela, terá cuidado de não pôr mais sua mão perto de outra vela, pois ela esperará um efeito semelhante de uma causa que é semelhante em suas qualidades e aparências sensíveis. Se afirmais, contudo, que o entendimento da criança chega a esta conclusão por algum processo de argumento ou de raciocínio, posso legitimamente pedir-vos que se mostre este argumento, e não tendes qualquer pretexto para recusar um pedido tão justo. Não podeis dizer que o argumento é abstruso e que possivelmente escapa à investigação, desde que confessais que ele é evidente até mesmo para a capacidade de um simples bebê. Se hesitais, contudo, por um momento, ou se, depois da reflexão, produzis um argumento complicado ou profundo, de certa maneira abandonais o problema e confessais que não é o raciocínio que nos induz a supor que o passado se assemelha ao futuro e a esperar efeitos semelhantes de causas que são, aparentemente, semelhantes.”


     “Tanto a paixão filosófica como a paixão religiosa parecem expostas — embora procurem extirpar nossos vícios e corrigir nossos hábitos — ao inconveniente, quando manejadas com imprudência, de servirem apenas para encorajar uma inclinação predominante e conduzir o espírito resolutamente na direção que previamente mais o atraia, devido às tendências e inclinações do temperamento natural. Certamente, enquanto aspiramos à magnânima firmeza do saber filosófico e tentamos encerrar nossos prazeres nos limites de nosso próprio espírito, podemos, finalmente, tornar nossa filosofia, como aquela de Epicteto e outros estoicos, num sistema mais refinado de egoísmo e persuadir-nos racionalmente de nos desligar de toda virtude como também de todos os prazeres sociais. Enquanto refletimos a propósito da vaidade da vida humana e pensamos na natureza fútil e transitória das riquezas e das honras, estamos, talvez, durante todo este tempo, lisonjeando nossa indolência natural que, por aversão à azáfama do mundo e à fadiga dos negócios, procura um pretexto racional para entregar-se completa e livremente à preguiça. Há, contudo, uma corrente filosófica que parece menos exposta a este inconveniente, pois ela não se liga a nenhuma paixão desordenada do espírito e nem se alia a qualquer tendência ou propensão natural: é a filosofia acadêmica ou cética. Os acadêmicos falam sempre da dúvida e da suspensão do juízo, do risco das resoluções apressadas, em confinar as investigações do entendimento a estreitos limites e em renunciar a todas as especulações que transbordam as fronteiras da vida e da prática cotidianas. Nada, por conseguinte, pode ser mais contrário a tal filosofia do que a indolente letargia do espírito, sua atrevida arrogância, suas elevadas pretensões e sua credulidade supersticiosa. Toda paixão é mortificada por ela, exceto o amor à verdade; e esta paixão não é jamais, nem pode ser, elevada a um grau demasiado alto. É surpreendente, todavia, que esta filosofia, que em quase todos os aspectos deve ser inofensiva e inocente, seja o objeto de tantas acusações e de tantas censuras infundadas. Mas, talvez, a própria circunstância que a torna tão inocente seja justamente o que a expõe ao ódio e ao ressentimento públicos. Porque ela não adula nenhuma paixão desordenada, não obtém muitos adeptos; porque ela se opõe a tantos vícios e tantas tolices, levanta contra si um grande número de adversários, que a estigmatizam como profana, libertina e irreligiosa.”


     “Nada é mais útil aos escritores, mesmo os que escrevem a respeito de temas morais, políticos ou físicos, do que distinguir entre a razão e a experiência e supor que estas classes de argumentação são inteiramente diferentes entre si. As primeiras são consideradas meros resultados de nossas faculdades intelectuais, as quais, ao considerarem a priori a natureza das coisas e examinarem os efeitos, que devem resultar de sua operação, estabelecem princípios particulares à ciência e à filosofia. As últimas são supostas derivar inteiramente dos sentidos e da observação, por meio dos quais sabemos o que é que resultou de fato da operação de objetos particulares e assim somos capazes de inferir o que resultará deles no futuro. Assim, por exemplo, as limitações e restrições do governo civil e de sua constituição legal podem ser defendidas tanto mediante a razão, que refletindo sobre a debilidade e corrupção da natureza humana nos ensina que a nenhum homem se pode confiar uma autoridade ilimitada, como mediante a experiência e a história, que nos informam dos enormes abusos que a ambição tem cometido em toda época e país, devido a uma confiança tão imprudente.
     A mesma distinção entre razão e experiência se verifica em todas as nossas deliberações acerca da conduta na vida. Deste modo, o estadista, o general, o médico e o mercador experientes são seguidos e inspiram confiança, enquanto o novato inexperiente é, por mais bem-dotado de talentos naturais, desprezado e desconsiderado. Embora se admita que a razão pode formular conjeturas mais plausíveis sobre determinada conduta em determinadas condições, supõe-se, todavia, que ela é imperfeita sem o auxilio da experiência, pois esta é a única via capaz de conferir estabilidade e certeza às máximas deduzidas mediante estudo e reflexão.
     Apesar da aceitação universal desta distinção, tanto nas etapas da vida ativa como especulativa, não terei escrúpulos em afirmar que é uma atitude errônea ou, ao menos, superficial.
     Se examinarmos os argumentos em uma das ciências acima mencionadas e supormos que eles são meros efeitos do raciocínio e da reflexão, verificaremos que terminam pelo menos em alguma conclusão ou princípio geral, aos quais não podemos alegar outra razão a não ser a observação e a experiência. A única diferença entre as máximas racionais e experimentais (estas vulgarmente consideradas resultantes da mera experiência) consiste em que as primeiras não podem ser estabelecidas sem algum processo do pensamento e alguma reflexão sobre o que foi observado, a fim de distinguir suas circunstâncias e traçar suas consequências; nas máximas experimentais, o evento experienciado é exata e completamente similar ao que inferimos como resultado de uma situação particular qualquer. A história de um Nero ou de um Tibério nos levaria a temer semelhante tirania se nossos monarcas estivessem livres das restrições do Senado e da Lei. Mas a constatação de qualquer fraude ou crueldade na vida privada é suficiente, com o auxilio de alguma experiência, para alertar-nos do mesmo temor, porque serve de exemplo da corrupção geral da natureza humana e nos mostra o perigo que poderíamos correr se depositássemos inteira confiança na humanidade. Nos dois casos a experiência é, em última análise, o fundamento de nossa inferência e conclusão.
     Não há homem tão jovem e inexperiente que não tenha formado muitos e corretos princípios sobre os assuntos humanos e a conduta na vida. Mas é preciso admitir que, quando um homem procura exercê-los, está mais propenso a errar, até que o tempo e experiências ulteriores lhe ampliem estes princípios e lhe ensinem seu uso adequado e aplicação. Em toda situação ou incidente ha várias circunstâncias particulares, aparentemente sem importância, que o homem mais bem-dotado está inclinado a princípio a desdenhar, embora dependam delas a exatidão de suas conclusões e, por conseguinte, a prudência de sua conduta. Sem mencionar que, para um jovem principiante, os princípios e as operações gerais nem sempre se manifestam em ocasiões adequadas e nem podem ser imediatamente aplicados com a devida calma e distinção. A verdade é que um homem que raciocina sem experiência não poderia raciocinar se olvidasse inteiramente a experiência; quando designamos alguém com esta característica, fazemo-lo somente em sentido comparativo e supomos que possui experiência em grau mais ou menos imperfeito.”


     “A diferença entre a ficção e a crença se localiza em algum sentimento ou maneira de sentir, anexado à última e não à primeira, que não depende da vontade e não pode ser manipulado a gosto. É preciso que a natureza a desperte como os outros sentimentos; é preciso que ela nasça da situação particular em que o espírito se encontra em cada conjuntura particular. Todas as vezes que um objeto se apresenta à memória ou aos sentidos, pela força do costume, a imaginação é levada imediatamente a conceber o objeto que lhe está habitualmente unido; esta concepção é acompanhada por uma maneira de sentir ou sentimento, diferente dos vagos devaneios da fantasia. Eis toda a natureza da crença.
     Digo, pois, que a crença não é nada senão uma concepção de um objeto mais vivo, mais vivido, mais forte, mais firme e mais estável que aquela que a imaginação, por si só, seria capaz de obter. Uso esta variedade de termos, embora tão pouco filosófica, com a única intenção de exprimir este ato de espírito que nos revela realidades, ou que se considera como tal, mais presentes a nós que as ficções, que as faz pensar mais no pensamento e lhes dá uma influência superior às paixões e à imaginação. Desde que concordamos no tocante à coisa, é desnecessário discutir acerca dos termos. A imaginação governa todas as suas ideias e pode uni-las, misturá-las e variá-las de todas as formas possíveis. Pode conceber objetos fictícios em todas as situações de espaço e de tempo. Pode colocá-los de certa maneira diante de nossos olhos com suas próprias cores, exatamente como se houvessem existido. Mas, como é impossível que essa faculdade da imaginação possa jamais, por si mesma, converter-se em crença, é evidente que a crença não consiste na natureza particular ou na ordem das ideias, mas na maneira como o espírito as concebe e as sente. Confesso que é impossível explicar com perfeição este sentimento ou esta maneira de conceber. Podemos usar palavras que expressam algo parecido. Mas o seu nome verdadeiro e próprio, como já dissemos, é crença: termo que cada um compreende suficientemente na vida corrente. Em filosofia, não podemos ir além da seguinte afirmação: crença é qualquer coisa sentida pelo espírito, que distingue as ideias dos juízos das ficções da imaginação. Ela lhes dá maior peso e influência; as faz parecer de maior importância; as reforça no espírito e as estabelece como princípios diretivos de nossas ações. Ouço agora, por exemplo, a voz de uma pessoa conhecida, e o som parece vir do quarto contíguo. Esta impressão dos meus sentidos conduz imediatamente meu pensamento à pessoa e, ao mesmo tempo, a todos os objetos circundantes. Eu os pinto para mim mesmo como existentes atualmente e com as próprias qualidades e relações que já sabia que possuíam. Estas ideias se apoderam de meu espírito mais depressa que as ideias de um castelo encantado. Sinto-as de modo muito diferente, e sua influência é bem maior, em todos os pontos de vista, tanto para produzir prazer e dor como alegria e tristeza.
     Consideremos, pois, esta doutrina em toda a sua extensão e concedamos que o sentimento da crença nada mais é do que uma concepção mais intensa e mais firme do que aquele que acompanha as puras ficções da imaginação, e que esta maneira de conceber nasce de uma conjunção costumeira do objeto com alguma coisa presente à memória e aos sentidos. Não será difícil, creio eu, com estas conjeturas, encontrar outras operações do espírito que lhe sejam análogas e ascender deste fenômeno a princípios ainda mais gerais.”


     “Quando lanço ao fogo um pedaço de lenha seca, meu espírito se vê obrigado imediatamente a conceber que ela aviva em vez de extinguir a chama. Esta transição do pensamento da causa ao efeito não se baseia na razão. Sua origem deriva completamente do hábito e da experiência. Visto que a transição se origina de um objeto presente aos sentidos, este incorpora à ideia ou à concepção da chama mais força e vivacidade do que qualquer devaneio vago e flutuante da imaginação. Esta ideia nasce imediatamente. E o pensamento converge instantaneamente para a ideia, transferindo-lhe toda a força conceptual que deriva da impressão presente aos sentidos. Se uma espada estiver apontada para o meu peito, as ideias de ferimento e dor que a acompanham não me atingem com mais força do que se me apresentam um copo de vinho, e mesmo supondo que por acaso esta ideia surgisse após o aparecimento do último objeto? Mas, o que é que causa uma concepção tão forte, senão unicamente a presença de um objeto, e a transição costumeira para a ideia de outro objeto, que nos acostumamos a juntar com a primeira? Eis toda operação do espírito em todas as nossas conclusões referentes às questões de fato e de existência; e já é uma satisfação encontrar algumas analogias que podem explicá-la. A transição a partir de um objeto presente dá, em todos os casos, força e solidez à ideia com a qual está relacionado.”


     “Toda ideia é copiada de uma impressão ou de uma sensação precedentes; se não podemos localizar a impressão, podemos assegurar-nos de que não há ideia. Em todos os casos isolados da atividade dos corpos ou espíritos, não há nada que produza uma impressão, nem, por conseguinte, que possa sugerir uma ideia de poder ou de conexão necessária. Mas quando aparecem vários casos uniformes, e o mesmo objeto é sempre seguido pelo mesmo evento, então começamos a admitir a noção de causa e de conexão. Nós sentimos então um novo sentimento, ou nova impressão, ou seja, uma conexão costumeira no pensamento ou na imaginação entre um objeto e o seu acompanhante habitual; e este sentimento é a origem da ideia que procuramos. (...) Em todos os raciocínios abstratos há um ponto de vista que, se afortunadamente o alcançamos, nos ilustra mais acerca do assunto que mediante toda a eloquência do mundo. Devemos aspirar a este ponto de vista e reservar os floreios da retórica para oportunidade mais adequada.”


     “O predomínio da doutrina da liberdade pode ser explicado por outra causa, ou seja, uma falsa sensação ou aparente experiência de liberdade ou indiferença que temos ou que podemos ter em muitos de nossos atos. A necessidade de uma ação da matéria ou do espírito não é, propriamente falando, uma qualidade no agente, mas em qualquer ser pensante e inteligente que pode considerar a ação, e ela consiste principalmente nas determinações de seus pensamentos para inferir a existência desta ação a partir de alguns objetos precedentes. De modo que a liberdade, quando oposta à necessidade, não é senão a ausência desta determinação e a presença de certo abandono ou indiferença que sentimos ao passar ou não passar da ideia de um objeto à de outro que o sucede. Podemos, assim, observar que, mesmo ao refletir sobre os atos humanos, raramente sentimos esse abandono ou indiferença, mas somos geralmente capazes de inferi-los de seus motivos e das disposições de quem os realiza; sem dúvida, ao realizar estes mesmos atos, notamos frequentemente algo parecido a isto. E, como é fácil confundir todos os objetos semelhantes, isto tem sido usado como prova demonstrativa e mesmo intuitiva da liberdade humana. Sentimos que nossos atos estão sujeitos à nossa vontade na maioria dos casos e imaginamos que sentimos a vontade como não subordinada a nenhuma coisa porque, quando por afirmação contrária somos provocados a tratar de fazê-lo, sentimos que ela se move facilmente em todas as direções e produz uma imagem de si mesma (ou uma veleidade, como tem sido denominada nas escolas), embora sem decidir para que lado ela se dirige. Esta imagem ou débil movimento nesse momento poderia (estamos persuadidos disto) haver chegado a ser a própria coisa, porque, se isto fosse negado, veríamos, numa segunda tentativa, que agora pode chegar a sê-lo. Não consideramos que o fantástico desejo de mostrar a liberdade é aqui o motivo de nossas ações. Parece certo que, qualquer que seja a maneira pela qual sentimos em nós a liberdade, um espectador pode geralmente inferir nossos atos de nossos motivos e do nosso caráter, e mesmo quando não pode conclui geralmente que poderia se conhecesse perfeitamente todas as circunstâncias de nossa situação e temperamento e as fontes mais secretas de nossa disposição. Esta é, portanto, a verdadeira essência da necessidade, segundo a doutrina anterior.”


     “Por liberdade, então, podemos apenas entender um poder de agir ou de não agir segundo as determinações da vontade.”


     “Admite-se universalmente que nada existe sem uma causa de sua existência e que a palavra ‘acaso”, se examinada com cuidado, é puramente negativa e não designa nenhuma força real que exista em qualquer lugar na natureza. Mas se se pretende que algumas causas são necessárias enquanto outras não o são, vemos então a vantagem das definições. Se alguém definisse uma causa, sem compreender, como elemento da definição, a conexão necessária com o seu efeito, e se mostrasse distintamente a origem da ideia expressa pela definição, desistiria prontamente de toda controvérsia. Mas, se se aceita a explicação anterior do assunto, isto deve ser absolutamente impraticável. Se os objetos não tivessem entre si uma conjunção regular, nunca formaríamos qualquer noção de causa e de efeito; esta conjunção regular produz a inferência no entendimento, que é a única conexão da qual podemos ter alguma compreensão. Quem pretender definir a causa, excluindo estas circunstâncias, será obrigado a empregar termos ininteligíveis ou dar sinônimos do termo que se tenta esforçar por definir*. Se se admite a definição acima citada, a liberdade, oposta à necessidade e não à restrição, é a mesma coisa que o acaso e a respeito do qual toda a gente está de acordo que não existe.”
*: Assim, se uma causa fosse definida como o que produz algo, é fácil observar que produzir é sinônimo de causar. Do mesmo modo, se se definisse uma causa como aquilo por meio do qual algo existe, esta definição está sujeita à mesma objeção. O que se entende pelos termos por meio da qual? Se se houvesse dito que a causa é aquilo depois do qual algo existe constantemente, teríamos entendido os termos. Porque isto é, em verdade, tudo o que sabemos acerca do assunto. E esta constância constitui a verdadeira essência da necessidade, já que não temos outra ideia dela.


     “Não há método mais comum de raciocinar — e não obstante nenhum mais censurável — do que refutar as hipóteses nas discussões filosóficas sob pretexto de conterem perigosas consequências para a religião e a moral. Quando uma opinião conduz ao absurdo, é certamente falsa, mas não é evidente que uma opinião seja falsa porque suas consequências são perigosas. Devem-se evitar inteiramente tais lugares-comuns, pois eles em nada auxiliam na descoberta da verdade, servindo apenas para tornar odiosa a pessoa de um adversário.”


     “A necessidade pode definir-se de duas maneiras, de acordo com duas definições de causa, da qual ela constitui uma parte essencial. Consiste, ou na conjunção constante de objetos semelhantes, ou na inferência que faz o entendimento de um objeto a outro. Ora, a necessidade, nestes dois sentidos — que, certamente, em essência são a mesma coisa — é reconhecida por toda a gente, embora tacitamente, nas escolas, no púlpito e na vida diária, ela pertença à vontade humana; jamais alguém pretendeu negar que podemos tirar inferências das ações humanas, e que estas inferências se baseiam sobre a experiência da união de atos semelhantes com motivos, inclinações e situações semelhantes.”


     “Nenhuma fraqueza da natureza humana é mais notável e mais universal do que a que denominamos credulidade”. (Tratado, I, iii, p. 112).


     “O fato de que os relatos sobrenaturais proliferam principalmente entre as nações ignorantes e bárbaras constitui forte suspeita contra eles; e se um povo civilizado tem admitido alguns destes relatos, decorre do fato de tê-los recebido de ancestrais ignorantes e bárbaros, que os transmitiram com a sanção e a autoridade invioláveis que sempre acompanham as opiniões recebidas. Quando examinamos as primeiras histórias de todas as nações, sentimo-nos inclinados a imaginar-nos transportados a um novo mundo, onde toda a trama da natureza está desarticulada e todos os elementos efetuam suas operações de uma maneira diferente que fazem na atualidade. As batalhas, as revoluções, a peste, a fome e a morte não são nunca efeitos de causas naturais que experimentamos. Prodígios, presságios, oráculos e punições divinas ocultam completamente os poucos eventos naturais que se misturam a eles. Mas, como o seu número diminui a cada página, à medida que nos aproximamos das épocas das luzes, rapidamente compreendemos que não há nada de misterioso ou de sobrenatural no assunto, mas que tudo decorre da tendência natural dos homens para o maravilhoso, e que, embora esta inclinação às vezes possa ser refreada pelo bom senso e pela instrução, não pode ser jamais extirpada da natureza humana.
     É estranho, tende a dizer um leitor judicioso, depois de ler atentamente estes historiadores maravilhosos, que tais eventos prodigiosos não ocorram jamais em nossos dias! Mas creio eu que não há nada de estranho que os homens mintam em todas as épocas. Deveis, certamente, ter encontrado muitos exemplos desta debilidade. Haveis, vós mesmos, ouvido muitos destes relatos maravilhosos que, desprezados por todas as pessoas sábias e sensatas, têm sido finalmente abandonados até pelo homem comum. Podeis estar seguros de que estas famosas mentiras, que se têm difundido e florescido até alcançarem uma altura tão monstruosa, tiveram origens análogas; mas, como foram semeadas num solo mais propício, cresceram até se tomarem prodígios quase tão grandes como os que aqueles narram.”


     “A velhacaria e a leviandade humanas são fenômenos tão normais, que prefiro acreditar que os eventos mais extraordinários tenham aí sua origem, a admitir uma violação tão marcante das leis da natureza.
     Mas, se este milagre fosse atribuído a um novo sistema religioso, é preciso considerar que os homens, em todas as épocas, têm sido ludibriados por ridículas histórias deste gênero, que precisamente esta circunstância seria uma prova completa da impostura, e suficiente para levar todos os homens de bom senso, não apenas a rejeitar o fato, mas mesmo a rejeitá-lo sem mais exame. Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja, neste caso, Onipotente, o fato não se torna, por esta razão, nem um pouco mais provável, visto que nos é impossível apreender os atributos e os atos de um tal Ser, senão através da experiência que temos de suas produções no curso ordinário da natureza. Isto nos subjuga às observações passadas e nos obriga a comparar os exemplos de violação da verdade graças aos testemunhos humanos com os da violação das leis da natureza devido aos milagres, a fim de julgarmos qual das duas é mais plausível e mais provável. Como as violações da verdade são mais comuns nos testemunhos concernentes a qualquer outra espécie de fatos, isto deve diminuir bastante a autoridade do primeiro tipo de testemunho e deve nos levar a formular a resolução geral de não lhes prestar nenhuma atenção, mesmo quando protegidos pelos mais plausíveis pretextos.”


     “A principal fonte de equívocos neste assunto e da ilimitada liberdade de conjeturar que toleramos decorre do fato de que tacitamente nos colocamos no lugar do Ser Supremo e concluímos que em todas as ocasiões observará a mesma conduta que nós mesmos, em sua situação, teríamos aceito como razoável e conveniente. Mas, além de que o curso ordinário da natureza pode convencer-nos de que quase tudo se regula por princípios e máximas muito diferentes das nossas, além disto, digo eu, deve parecer evidentemente contrário a todas as regras da analogia raciocinar a partir das intenções e projetos humanos para os de um Ser tão diferente e tão superior a um grau tão alto.”
     Na natureza humana há certa experimentada coerência de desígnios e de inclinações, de modo que, quando um fato nos permitiu descobrir uma intenção de um homem, pode ser frequentemente razoável, a partir desta experiência, inferir uma outra e tirar uma longa cadeia de conclusões sobre sua conduta passada ou futura. Mas este método de raciocínio não pode jamais intervir em relação a um Ser tão longínquo e tão incompreensível, que tem muito menos analogia com um outro ser do universo que o sol com uma vela de cera, e que apenas se manifesta por alguns traços pálidos ou vestígios, além dos quais não temos nenhuma autoridade para designar-lhe qualquer atributo ou qualquer perfeição. O que imaginamos ser uma perfeição superior pode ser realmente um defeito. Ou, se é no ponto mais alto uma perfeição, atribuindo-a ao Ser Supremo, em caso de não se ter realizado completamente em suas obras, parece mais adulação e panegírico do que raciocínio correto e sã filosofia.”


     “Um ceticismo moderado pode ser aceito como bastante razoável, pois afigura-se como atitude prévia e indispensável ao estudo da filosofia, mantendo adequada imparcialidade em nossos juízos e apartando nosso espírito de todos os preconceitos adquiridos pela educação e precipitação. Iniciar com princípios claros e evidentes por si mesmos, avançar com passos prudentes e seguros, repassar frequentemente nossas conclusões e examinar rigorosamente todas as suas consequências são os únicos métodos que nos podem levar a aspirar à verdade e lograr uma adequada estabilidade e certeza em nossas conclusões, embora reconhecendo que assim nossos sistemas progridem pouco e lentamente.”


     “A natureza sempre é mais forte que os princípios.”


     “A maioria dos homens têm tendência natural para manifestar suas opiniões de modo afirmativo e dogmático e, como visualizam os objetos sob um único aspecto e como não têm qualquer ideia de argumentos opostos, lançam-se precipitadamente aos princípios para os quais estavam inclinados e não são indulgentes com aqueles que abrigam opiniões contrárias. A dúvida ou a suspeita gera perplexidade em seu entendimento, bloqueia sua paixão e interrompe sua ação. Portanto, impacientes para escapulir de uma situação que lhes é tão desagradável, os homens supõem que unicamente aderindo às afirmações violentas e crenças obstinadas conseguirão afastar-se o bastante dela. Mas, se tais homens que raciocinam dogmaticamente pudessem ter consciência da singular fragilidade do entendimento humano, inclusive em seu estado mais perfeito e quando é mais rigoroso e prudente em suas resoluções, semelhante reflexão os inspiraria naturalmente a ter mais modéstia e reserva, diminuindo a exagerada opinião que têm de si mesmos e seus preconceitos contra os adversários. Os ignorantes devem refletir acerca da situação dos sábios que, embora usufruindo de todas as vantagens advindas do estudo e da reflexão, se mostram geralmente desconfiados de suas afirmações. E, se algum sábio tende, por seu temperamento natural, à altivez e à obstinação, uma leve tintura de pirronismo poderia abater seu orgulho e mostrar-lhe que as poucas vantagens que obteve sobre seus semelhantes são insignificantes se comparadas à confusão e à perplexidade universais inerentes à natureza humana. Em geral, há um grau de dúvida, de prudência e de modéstia que, nas investigações e nas decisões de todo gênero, deve sempre acompanhar o homem que raciocina corretamente.”


     “Os raciocínios morais referem-se tanto a fatos particulares como gerais. Todas as deliberações da vida dizem respeito aos primeiros, bem como todas as investigações da história, da cronologia, da geografia e da astronomia.
     As ciências referentes aos fatos gerais são a política, a filosofia natural, a física, a química etc., nas quais se investigam as qualidades, as causas e os efeitos de toda uma espécie de objetos.
     As ciências religiosas ou teológicas, enquanto visam a provar a existência de Deus e a imortalidade das almas, compõem-se em parte de raciocínios baseados em fatos particulares e, em parte, de raciocínios baseados em fatos gerais. Fundam-se sobre a razão, na medida em que se apoiam na experiência. Mas seu melhor e mais sólido fundamento é a fé e a revelação divina.
     A moral e a crítica não são propriamente objetos do entendimento, porém do gosto e do sentimento. A beleza, moral ou natural, é antes sentida que propriamente percebida. Ou, se raciocinamos a seu respeito, e tentamos estabelecer sua norma, consideramos um novo fato, derivado do gosto geral dos homens, ou algum fato análogo que pode ser objeto do raciocínio e da investigação.
     Quando percorremos as bibliotecas, persuadidos destes princípios, que destruição deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de metafísica escolástica e indagarmos:
     Contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental a respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto, lançai-o ao fogo, pois não contém senão sofismas e ilusões.”

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Carta sobre a tolerância – John Locke

Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1674-8
Tradução: João da Silva Gama
Opinião: ***
Páginas: 152


Raymond Polin – Prefácio

     “O Estado nasce da obrigação em que o homem se encontra de obedecer à lei natural e, para assegurar a conservação e a integridade da sua vida, do seu corpo, da sua liberdade e dos seus bens, construir uma sociedade, no seio da qual todos poderemos desfrutar da segurança, da paz e da prosperidade comum, que não deixará de seguir-se. Tal é o bem público, em vista do qual o Estado se constituiu. É uma sociedade estabelecida por um determinado número de homens com o único fim de conservar e promover os seus bens temporais, na medida em que estes são bens civis reconhecidos pela lei, Para levar a cabo a sua função, apesar dos maus, o Magistrado dispõe da força pública “toto scilicet subditorum suorum robore” e age, portanto, pela coacção, pelas sanções, em síntese, pela lei apoiada na sua força. Visa fins estritamente temporais por meios estritamente temporais. Os limites do poder supremo, de que o Magistrado dispõe, são essencialmente limites funcionais: a prerrogativa do Magistrado tem os limites que lhe fixam os fins para os quais esta lhe foi concedida: tem todos os poderes que lhe são necessários para realizar e salvaguardar o bem público e apenas este. A função da força pública é assegurar a paz para todos e a liberdade para cada um.
     Uma igreja, pelo contrário, é uma sociedade livre e voluntária ou, segundo a palavra de Locke, uma socíetas spontanea, uma sociedade que não corresponde nem à necessidade, nem até, como a comunidade política, a uma obrigação conforme à lei natural. Nasce da necessidade de afirmar publicamente a sua fé, de servir e honrar a Deus em público e em comum, desfrutando do seu acordo com outrem. Ela própria se forma pelo livre acordo dos que se juntam para professar e praticar em comum e publicamente o que pensam ser a verdadeira religião e o culto agradável a Deus, a fim de assegurar a salvação eterna da sua alma. É por isso que Locke pode escrever que a tolerância é “o principal critério da verdadeira igreja”. A igreja diz respeito ao homem enquanto tem uma alma imortal, capaz de uma felicidade ou de uma infelicidade eterna e enquanto “a sua salvação depende de ter feito o que devia a acreditar no que estava prescrito”. A igreja dirige-se unicamente às almas e visa a sua salvação eterna. É claro que, nestas condições, nenhuma igreja é necessária e cada qual é juiz da igreja a que decide livremente pertencer; em última análise, alguns homens, por mais reduzido que seja o seu número, podem formar, para si próprios, uma igreja.
     A fortiori é claro que nenhuma estrutura interna e nenhuma hierarquia é essencial a uma igreja enquanto tal. Sem dúvida, enquanto sociedade, uma igreja tem as suas leis que são necessárias ao seu funcionamento, e o direito de fazer as suas leis pertence à própria sociedade. Mas ela não dispõe de força alguma coativa, de direito algum para atacar os direitos civis, os bens deste mundo. Como arma, dispõe do direito de discutir, de argumentar, de exortar; como sanção, o direito de excluir do seu seio os que considere em desacordo irredutível com ela.
     O Estado e a igreja existem, pois, sem um laço comum entre si ou, antes, não deveriam ter qualquer laço comum, se cada qual se ativer estritamente ao seu domínio. Dizem respeito ao Estado apenas este mundo e os seus bens; pode apenas agir sobre eles e tem somente o direito de se ocupar deles. A salvação eterna e o cuidado das almas apenas dizem respeito à igreja; ela unicamente pode agir sobre as almas e apenas tem o direito de se ocupar delas. A tolerância é a consequênda direta desta separação, já que cada igreja é independente do Estado e não dispõe de nenhum dos meios temporais de coacção que este possa acionar, já que, por outro lado, o Estado não é abrangido pelo que diz respeito à fé e à salvação das almas, sendo, nestas matérias, tão ineficaz como incompetente.
     Com efeito, e este novo argumento é, sem dúvida, o princípio de todos os outros, cada qual é o único capaz, e no seu foro interno, de cuidar da sua alma e assegurar a salvação eterna. Apenas contam a fé pura e a sinceridade interior. É na fé que consiste a força e a eficácia da verdadeira religião. Ninguém pode deixar a outrem, seja príncipe ou papa, o cuidado de decidir quanto à sua fé e de assegurar a salvação. Cada qual é juiz, em última instância, da sua fé e salvação: uma e outra dependem unicamente de si. Por outras palavras, a liberdade do juízo, que é essencial ao homem, que é o meio por excelência graças ao qual se pode cumprir a obrigação do homem face à liberdade e a uma existência verdadeiramente humana, deve poder exercer-se em matéria de religião.”


     “É por isso – trata-se menos de um argumento do que de uma condenação radical – que Locke denuncia todos os que a seus olhos é manifestamente o maior número – tomam a religião como pretexto para satisfazer o seu desejo de riqueza e de poder, ou até para dar livre curso ao seu fanatismo, corroído de vícios e crueldade. É este farisdísmo que está na origem dos piores excessos da intolerância. É ele que ameaça todos os que, dispondo de um poder temporal, são tentados a dele abusar.
     Importa sublinhar aqui que Locke insiste tão fortemente no tema da autonomia do juízo – é, com efeito, um dos temas maiores da sua filosofia, a explicação do seu combate contra o inatismo e o dogmatismo – que deixa de lado uma das argumentações mais tradicionais a favor da tolerância. Quase não alude ao facto de reinar, em matéria de religião, uma extrema diversidade de opiniões. Os defensores da tolerância deduziam, ordinariamente, que, no estado de ignorância em que os homens se encontram, naturalmente fracos e cegos, e na falta de certeza e até de saber, era necessário proibir impor aos outros, pela força, as suas próprias crenças como verdades. É insensato esperar que algum homem se submeta sincera e lucidamente a uma autoridade que o seu entendimento não reconhece. A necessidade em que nos encontramos de crer sem saber, no estado de hesitação e de cegueira em que estamos, deveria tornar-nos mais cuidadosos em nos informarmos e informar os outros – mediante processos delicados e leais – do que em os constranger.”


     “A tolerância tal como a concebe não é uma tolerância qualquer. Aplica-se ao exercício da liberdade, que não é a licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza humana. A liberdade do homem só tem sentido em relação à lei clã sua natureza, que é uma lei racional. Uma tal liberdade não pode ser garantida e salvaguardada a não ser no quadro do estado civil. É neste quadro que a tolerância deve, pois, necessariamente exercer-se; deve excluir-se tudo o que vai contra a existência da comunidade política e da paz civil.
     A sua doutrina sobre a tolerância funda-se na distinção radical entre o domínio da política e o da fé; as religiões que infringem esta distinção não são puras religiões, não têm o direito de obter os benefícios desta distinção que elas não respeitam; não têm nenhum direito à tolerância e isto tanto menos quanto procuram ter influência sobre o Estado. A condenação do catolicismo submetido ao Papado por laços políticos, como a do ateísmo, fundamentalmente inadequado para manter os laços morais necessários à vida política, mostram bem que a tolerância não está fundada por Locke nos direitos da consciência, mas na defesa da liberdade essencial ao homem e na salvaguarda da paz no Estado. Eis o seu princípio e o seu limite.”


     “Do tema da autonomia da fé, Locke conserva aqui, sobretudo, dois aspectos: por um lado, que o culto de Deus consiste essencialmente nas virtudes interiores, amor, respeito, temor de Deus, esperança, fé; que o que conta aqui é o coração e o respeito, e que Deus colocou no homem uma alma para lhe prestar homenagem, sendo ele o único adorador que lhe é agradável. Por outro lado, observa que este culto tácito e secreto escapa e deve escapar às leis humanas. Deus é o único escrutinador e único juiz dos corações. A fé é um assunto entre cada homem e Deus.”


     “Locke provou que o indivíduo humano, princípio e fim de todo o Estado, é essencialmente social, inseparável de toda a sociedade e que aí reside o princípio e a obrigação do seu acordo, apesar dos conflitos suscitados pelas paixões e loucuras do homem. O homem é essencialmente social, excepto num ponto; pois, o homem, perante a lei e a sua salvação eterna, é um indivíduo perfeitamente solitário, um indivíduo absoluto; não um número fraccionário, como diz Rousseau, mas um número inteiro absoluto. Nenhuma participação numa sociedade religiosa lhe é essencial; nem nenhuma manifestação pública da fé, por essencial que seja à religião. Ao fim e ao cabo, é unicamente a este indivíduo absoluto face a face perante Deus, através das sociedades religiosas, sempre contingentes, sempre a formar-se, que a tolerância diz respeito. A meditação sobre a tolerância foi coextensiva à meditação política em Locke, porque procurou resolver um problema que escapava inicialmente à justiça do Estado, porque visava, no cidadão, um indivíduo absoluto fora de toda a comunidade política e até de toda a sociedade humana. Ao estabelecer o princípio de que a fé não tem qualquer relação com a política e que a igreja não deve ter qualquer contacto com o Estado, Locke quis garantir, em virtude da sua exterioridade recíproca, o respeito do Estado pelas religiões e seus fiéis e o respeito da fé do indivíduo pelo Estado. É por isso que o problema da tolerância não é um problema religioso, nem sequer um problema de consciência, para Locke, mas exclusivamente um problema prático.
     É necessário, além disso, dar à palavra política o seu pleno sentido e não esquecer aqui que Locke sempre concebeu a política apenas como a expressão e a aplicação de uma filosofia e, quanto possível, como o esforço empreendido para prolongar e aperfeiçoar uma moral. Ora, pode dizer-se que a sua filosofia teve como meio e por fim assegurar, no homem, a liberdade, princípio de todas as outras liberdades. “É, em última instância, o meu próprio juízo que me determina e não poderei ser livre se a minha vontade não estiver determinada pelo meu próprio desejo, guiado pelo meu próprio juízo”. Em toda a sua obra, Locke procurou libertar, no homem, o entendimento, a reflexão e o Juízo, dos obstáculos e das coacções que tendem a impor-lhe, in foro interno, a inquietude e a precipitação, e in foro externo, o espírito do domínio, o espírito de posse e das violências dos outros homens. As lutas de Locke contra o inatismo, contra o entusiasmo, contra as teorias do poder do direito divino, contra o exercício sem limites, sem regras e sem controlo, do poder supremo ou, da mesma maneira, da liberdade contra todo o dogmatismo não fundado na razão, enfim, contra a intolerância, não tem outro objecto. E a sua defesa da paz sob todas as formas, que é o espaço de eleição da liberdade, não tem outro sentido.
     O homem que, por natureza, nasceu capaz de razão e capaz de liberdade, não se pode tomar um homem completo se efectivamente não se tomar um homem livre, a free man, a moral man. O homem despojado da sua liberdade ou incapaz de amadurecer e tornar efectiva, propriamente falando, degenera; encontra-se excluído da condição humana ou incapaz de ter acesso a um estado verdadeiramente humano. É por isso que nenhum homem tem o poder de renunciar à sua liberdade, despojar-se da sua liberdade; a fortiori, é contrário à lei da sua natureza de homem e não tem o direito a isso. Ora, a liberdade realiza-se na obrigação de pensar e agir segundo a lei da razão. A lei da razão, como toda a lei digna deste nome, (isto é, a lei da razão deveria ser o princípio de todas as leis, a lei da natureza) não impõe à liberdade outros limites além dos que lhe asseguram o desenvolvimento e a salvaguarda. A liberdade é verdadeiramente esta lei e esta razão. A liberdade de pensar, de julgar e de agir, para um homem, está fundada no facto de ser dotado de razão assim como em ter razão, razão que lhe permite descobrir a lei segundo a qual tem de se governar livremente. Eis finalmente o verdadeiro, o único fundamento da tolerância, tal como Locke a estabeleceu, liberdade racional, sem a qual o homem não pode realizar a sua humanidade, não pode tornar-se um ser humano completo.”


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John Locke

     “Já que me pedis a opinião sobre a tolerância recíproca entre os cristãos, eis a minha breve resposta: é para mim o principal critério da verdadeira Igreja. Podem uns vangloriar-se da antiguidade dos lugares e títulos ou do esplendor do culto, outros da reforma de sua disciplina, e todos em geral da ortodoxia da sua fé (com efeito, cada qual é ortodoxo aos seus próprios olhos); estas e outras coisas do mesmo gênero são mais características da luta dos homens pelo poder e autoridade do que sinais da Igreja de Cristo. Quem tudo isto possui, mas carece de caridade, de mansidão e de benevolência para com todos os homens em geral, mesmo que não professem a fé cristã, ainda não é cristão. “Os reis das nações dominam sobre elas; quanto a vós, não será assim” (Lc XXII), diz o nosso Salvador aos seus discípulos. É outro o objetivo da verdadeira religião, que não foi instituída para a pompa exterior, nem para o poder eclesiástico, nem finalmente para a violência, mas para viver reta e piedosamente. Antes de mais, deve combater os seus próprios vícios, o orgulho e amor ao prazer, quem deseja combater na Igreja de Cristo; quem não pratica a santidade da vida, a castidade dos costumes, a bondade e a mansidão da alma, em vão procura o nome de cristão. “Tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos” (Lc XXII), disse o Senhor a Pedro. Com efeito, quem negligencia a sua salvação dificilmente se persuadirá de que se preocupa muito com a alheia: ninguém pode consagrar, com um coração puro, todas as suas forças a fazer dos outros cristãos, se ainda não abraçou verdadeiramente com a sua alma a religião de Cristo. Se é necessário acreditar no Evangelho, nos Apóstolos, ninguém pode ser cristão, sem a caridade, sem a fé que age, não pela força, mas pelo amor.”


     “Digo que é preciso, antes de mais nada, distinguir entre os assuntos da cidade e os da religião e definir os limites exactos entre a Igreja e o Estado. Se tal não se fizer, nenhuma solução se pode estabelecer para os conflitos levantados entre os que sinceramente se empenham, ou fingem empenhar-se, na salvação das almas ou do Estado.
     Parece-me que o Estado é uma sociedade de homens constituída unicamente com o fim de conservar e promover os seus bens civis.
     Chamo bens civis à vida, à liberdade, à integridade do corpo e à sua protecção contra a dor, à propriedade dos bens externos tais como as terras, o dinheiro, os móveis, etc.
     É dever do magistrado civil assegurar a todo o povo e a cada súdito em particular, mediante leis impostas igualmente a todos, a boa conservação e a posse de todas as coisas que se relacionam com esta vida; se alguém quisesse violar estas leis com prejuízo do que é permitido, e lícito, a sua audácia deve ser reprimida com o temor do castigo, que consiste em privá-lo totalmente ou parte de seus bens de que, de outro modo, teria podido desfrutar. Mas como ninguém sofre de bom ânimo ser privado de uma parte dos seus bens e ainda menos da liberdade ou da vida, o magistrado, para castigar os que violam o direito alheio, está armado de uma força, a saber, a força conjunta de todos os súbditos.
     A igreja parece-me ser uma sociedade livre de homens voluntariamente reunidos para adorar publicamente a Deus da maneira que julguem ser agradável à divindade em vista da salvação das almas.
     Digo que é uma sociedade livre e voluntária. Ninguém nasce membro de qualquer igreja, caso contrário, a religião do pai e dos avós passaria para os filhos por direito hereditário simultaneamente com as terras, e cada um deveria a fé ao seu nascimento: nada de mais absurdo se pode pensar. Eis, pois, como importa conceber as coisas. O homem não está, por natureza, obrigado a fazer parte de uma igreja, a ligar-se a uma seita; junta-se espontaneamente à sociedade em cujo seio julga que se pratica a verdadeira religião e um culto agradável a Deus. Porque a esperança da salvação que aí encontra é a única causa da sua entrada na igreja, será também a única razão de nela permanecer. Se vier a descobrir depois algum erro na doutrina ou qualquer incongruência no culto, é necessário que a mesma liberdade com que entrou, lhe faculte sempre a saída; nenhum laço é, com efeito, indissolúvel, a não ser os que se prendem com a esperança certa da vida eterna. Uma igreja congrega em si membros espontaneamente unidos em vista desse fim.”


     “O ferro e o fogo não são instrumentos adequados para combater os erros e instruir ou converter os espíritos dos homens.”


     “Seja qual for a origem da sua autoridade, porque é eclesiástica, deve exercer-se no interior das fronteiras da igreja e não pode de modo algum alargar-se às questões civis, uma vez que a própria igreja é absolutamente distinta e separada do Estado e dos assuntos civis. Os respectivos limites estão fixos e imutáveis.
     Quem confunde duas sociedades tão diferentes pela sua origem, pelo seu fim, pelo seu objecto, mistura as coisas mais diametralmente opostas, o céu e a terra.”


     “Quem professa ser sucessor dos Apóstolos e se arroga o ofício de ensinar é obrigado a recordar os seus dois deveres de paz e benevolência para com todos os homens; a todos, quer estejam no erro ou na ortodoxia, sejam da sua opinião ou deles se diferenciem pela fé e pelos ritos, sejam particulares ou governantes, se é que alguns destes se encontram na sua igreja, a todos devem exortar à caridade, à mansidão e à tolerância; devem apaziguar e abrandar o seu ódio e o ardor da sua animosidade contra os heterodoxos, que um zelo furioso pela sua religião e seita, ou que a habilidade de alguns acenderam nos seus espíritos.”


     “Não é fácil convencer homens cordatos de que desejamos ardente e sinceramente libertar o seu irmão, na vida futura, do fogo do inferno, se, com os olhos secos e a alma satisfeita, o entregarmos vivo aqui na terra ao carrasco para ser queimado.”


     “Nenhum caminho que eu siga contra a minha consciência me conduzirá alguma vez à morada dos bem-aventurados. Posso enriquecer numa profissão que detesto, posso curar-me graças a remédios em que não confio, mas não posso salvar-me por uma religião de que duvido, por um culto que abomino. É em vão que o incrédulo afeta um comportamento exterior honesto, se, para agradar a Deus, tem necessidade de fé e sinceridade interior. A mais miraculosa e experimentada medicina é em vão administrada se, logo depois de tomada, for rejeitada pelo estômago, e nunca se deve obrigar alguém a tomar, contrariado, um remédio que a sua idiossincrasia transforma em veneno. Seja o que for que se possa pôr em dúvida em matéria de religião, uma coisa pelo menos é certa; é que nenhuma religião, que não tome como verdadeira, pode ser para mim verdadeira ou útil. Logo, é em vão que, sob o pretexto de salvar a alma dos seus súditos, o magistrado os obriga a aderir à sua própria religião: se nela acreditam, virão espontaneamente; se não acreditam, ainda que venham, não deixarão de se perder. Por muito bem que queirais a outrem, por mais que façais pela sua salvação, não o podeis forçar a salvar-se: depois de tudo, deve deixar-se entregue a si próprio e à sua consciência.”


     “Uma pequena e insignificante multidão de cristãos chega a um país pagão; falta-lhes tudo: os estranhos pedem aos indígenas, homens pedem aos homens, como é justo, uma ajuda para sobreviver: o necessário é-lhes dado, são-lhes concedidas terras; os dois povos fundem-se num só. A religião cristã lança raízes, espalha-se, ainda não é mais forte; ainda se cultiva a paz, a amizade, a lealdade; e direitos iguais são salvaguardados: por fim, com a passagem do magistrado para o seu lado, os cristãos tornam-se mais fortes; então, os pactos são calcados aos pés, os direitos violados, a fim de expulsar a idolatria, e se todos estes inocentes pagãos, tão respeitadores do direito, não quiserem abandonar os seus ritos antigos e adoptar novos e estranhos, devem ser privados da vida, dos seus bens e terras ancestrais, embora não pequem nem contra os bons costumes, nem contra a lei civil; e por fim, constata-se o que o fanatismo por uma igreja, aliado ao desejo de dominar, aconselha abertamente; e com que facilidade a religião e a salvação das almas servem de pretexto à rapina e à ambição.”


     “Além da alma imortal, o homem tem uma vida na terra, perecível e de duração incerta, a que importa prover com os bens terrestres, que deve conquistar ou já conquistou pelo trabalho e diligência. Não nasce espontaneamente o que é necessário para bem viver. Daí, para o homem, a preocupação com essas coisas. Mas é tal a maldade dos homens que a maioria prefere aproveitar-se do produto do trabalho alheio em vez de se lançar a trabalhar; por isso, a fim de proteger os produtos do seu trabalho, como as riquezas e os poderes, ou o que serve para os adquirir, como a liberdade e a força do corpo, os homens devem constituir com os outros uma sociedade de modo a que, ajudando-se mutuamente e reunindo as suas forças, tomem segura e privada, para cada um a posse destas coisas úteis à vida; entretanto, deixam a cada um o cuidado da sua salvaçã o eterna, pois a aquisição da felicidade eterna não pode ser ajudada pela diligência alheia, nem a sua perda trazer dano a outrem, nem a esperança lhe pode ser arrebatada pela violência. Embora, por outro lado, os homens formem um Estado para garantir, mediante a ajuda material, a defesa dos bens desta vida, podem, todavia, ser deles desalojados, quer pela rapina e pela fraude dos concidadãos, quer pela agressão dos inimigos do exterior; para remediar este mal, são necessárias armas, riquezas e a multidão dos cidadãos; para remediar aquele, são necessárias leis; o poder e o cuidado de prover a todas estas coisas foi confiado aos magistrados pela sociedade. Tal é a origem, tais são os usos pelos quais se constitui o poder legislativo de todo o Estado, e tais são os limites que os circunscrevem: velar sempre pelas posses privadas dos indivíduos, pelo povo inteiro e utilidades públicas, a fim de que todos prosperem e cresçam em paz e riqueza, e se conservem em segurança pelas suas próprias forças contra as invasões alheias, quanto for possível.” 


     “Uma única coisa une o povo para a revolta: a opressão.”

domingo, 30 de abril de 2017

Dicionário Filosófico – Voltaire

Editora: Domínio Público
Tradução: Líbero Rangel de Tarso
Opinião: ****
Páginas: 459

     “Conhece-te a ti mesmo* é excelente preceito, mas só a Deus é dado pô-lo em prática. Quem mais pode conhecer a própria essência?”
*: Esta inscrição acha-se gravada na fachada do templo de Delfos.


     “Inútil discutir quanto aos sentimentos secretos de Moisés. O fato é que nas leis públicas ele nunca falou de vida futura. Todos os castigos, todos os prêmios, restringe-os ao presente. Se conhecia a vida vindoura, por que não expôs expressamente tão importante dogma? E se não a conheceu, qual o objeto de sua missão? É o que perguntam muitas personagens ilustres. E respondem que o Mestre de Moisés e de todos os homens se reservava o direito de explicar a bom tempo aos judeus uma doutrina que eles não estavam em condições de compreender quando no deserto.”


AMOR PRÓPRIO
     Um mendigo dos arredores de Madri esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
     — O sr. não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar?
     — Senhor, – respondeu o pedinte – estou lhe pedindo dinheiro e não conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
     Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo não suportava reprimendas.
     Viajando pela Índia, topou um missionário com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrícios hindus, que lhe davam algumas moedas do país.
     — Que renúncia de si próprio! – dizia um dos espectadores.
     — Renúncia de mim próprio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que não me deixo açoitar neste mundo senão para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
     Tiveram pois plena razão os que disseram ser o amor de nós mesmos a base de todos as nossas ações – na Índia, na Espanha como em toda a terra habitável.
     Supérfluo é provar aos homens que têm rosto. Supérfluo também seria demonstrar-lhes possuírem amor próprio. O amor próprio é o instrumento da nossa conservação. Assemelha-se ao instrumento da perpetuação da espécie. Necessitamo-lo. É-nos caro. Deleita-nos. E cumpre ocultá-lo.”


     “Parece-me que Bayle devia antes examinar qual o mais nocivo, se o fanatismo, se o ateísmo. O fanatismo é certamente mil vezes mais funesto, porquanto o ateísmo não inspira, como ele, paixão sanguinária. O ateísmo não se opõe ao crime: o fanatismo o atiça.”


     “Como disse um autor conhecido, o catequista anuncia Deus às crianças e Newton o demonstra aos sábios.”


     “A idade amolenta o caráter. Transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. Enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. Jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. Se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. Podemos lá criar alguma coisa? Não recebemos tudo? Experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. Não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. Nós aperfeiçoamos, esborcelamos, embuçamos o que nos estereogravou a natureza. Não há, porém, alterar-lhe a obra.
     Direis a um criador: – O Sr. tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. Seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão.
     Com isso deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. Os restantes engordam. Gabar-se-á ele dessa economia? Este camponês és tu mesmo. Uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. Não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando alguns jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes colérico: “Senhores, é esse o exemplo que lhes dou?”.”


     “Não suporto principalmente a demência das seitas. De um lado vejo Lao Tsé concebido pela união do céu e da terra e cuja mãe o carregou no ventre durante oitenta anos. Não tenho mais fé em sua doutrina do aniquilamento e da renúncia universal que nos cabelos brancos com que nasceu ou na vaca preta que montou para ir pregar sua doutrina. Não creio mais no deus Fo, ainda que tenha tido por pai um elefante branco e prometa a vida eterna.”


     “Um coração puro é o mais sublime dos templos, como dizia o grande imperador Hiao.”


     “Não há virtude que não ofereça seus riscos. Por isso mesmo é belo abraçá-las.”


     “O trabalho moderado é propiciador de saúde do corpo e da alma.”


     “Assim como não sabemos o que seja espírito, ignoramos o que seja corpo. Percebemo-lhe apenas propriedades. Mas que é o ente em que residem tais propriedades? Tudo é corpo, dizia Demócrito e Epicuro. Não existem corpos, contravinham os discípulos de Zênon de Eléia.
     Berkeley, bispo de Cloyne, foi o último que, por cem sofismas capciosos, pretendeu provar que os corpos não existem. Eles não têm, disse, nem cor, nem odor, nem calor. Tudo isso está em vossas sensações e não nos objetos. O Sr. Berkeley podia ter-se poupado ao trabalho de demonstrar semelhante verdade: conhecemo-la de sobejo. Mas daí passa à extensão, à solidez, que são essências do corpo, e julga provar não haver extensão num retalho de pano verde porque em verdade o pano não é verde. A sensação do verde acha-se tão somente em vós: por conseguinte a impressão de extensão não está também senão em vós. Após destruir a extensão, conclui que a solidez cai consequentemente por si mesma, e que portanto nada existe além das nossas ideias. De sorte que, segundo esse doutor, dez mil homens trucidados por dez mil balas de canhão não passam em suma de dez mil apreensões da nossa alma.”


     “Há muitos indivíduos que nasceram para raciocinar mal, outros para não raciocinar e outros para perseguir os que raciocinam.”


     “– E que Lhe pedes?
     – Agradeço-Lhe os bens de que gozo e os males com que lhe apraz provar-me. Abstenho-me porém de pedir-lhe seja o que for. Melhor que nós sabe Ele o que nos falta. Demais poderia dar-se que quando eu pedisse bom tempo meu vizinho pedisse chuva.”


     “— Julgo, – disse o brâmane – que não deve haver sobre a terra senão pouquíssimas repúblicas. Raramente são os homens dignos de se governar por si mesmos. Tal felicidade não deve pertencer senão a povos pequenos, que se insulem em ilhas ou entre montanhas, como coelhos a se esconderem dos carnívoros. Mas sempre acabam sendo descobertos e devorados.”


     “Fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático.”


     “Que deve um cão a um cão, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende de seu semelhante. Tendo porém o homem recebido o raio da Divindade que se chama razão, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra.
     Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto é, se em toda parte os homens encontrassem subsistência fácil e certa e clima apropriado a sua natureza, impossível teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o globo de frutos salutares. Não fosse veículo de doenças e morte o ar que contribui para a existência humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito além do dos gansos e capros monteses, não teriam os Gengis Cãs e Tamerlões vassalos senão os próprios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxiliá-los na velhice.
     No estado natural de que gozam os quadrúpedes, aves e répteis, tão feliz como eles seria o homem, e a dominação, quimera, absurdo em que ninguém pensaria: para que servidores se não tivésseis necessidade de nenhum serviço?
     Ainda que passasse pelo espírito de algum indivíduo de bofes tirânicos e braços impacientes por submeter seu vizinho menos forte que ele, a coisa seria impossível: antes que o opressor tivesse tomado suas medidas o oprimido estaria a cem léguas de distância.
     Todos os homens seriam necessariamente iguais, se não tivessem precisões. A miséria que avassala a nossa espécie subordina o homem ao homem – O verdadeiro mal não é a desigualdade: é a dependência. Pouco importa chamar-se tal homem Sua Alteza, tal outro Sua Santidade. Duro porém é servir um ao outro.”


     “Quando cheguei, fui a Versalhes para alguns negócios; vi passar uma bela mulher seguida de grande número de outras também belíssimas. “Quem é essa mulher?” perguntei ao meu advogado no parlamento, que viera comigo: pois tinha um processo no parlamento de Paris, em virtude dos hábitos que adquiri nas Índias, e desejava ter constantemente meu advogado comigo. “É a filha do rei, – disse ele: – é encantadora e caridosa; é uma grande pena que, em caso algum, jamais possa ser rainha de França.
     – Como, – disse-lhe eu – se tivéssemos a desgraça de perder todos os seus parentes e príncipes de sangue (o que Deus não permita!) ela não poderia herdar o reino de seu pai? – Não, – disse o advogado – a lei sálica se opõe formalmente a isso. – E quem fez essa lei? – perguntei ao advogado. – Nada sei a esse respeito, – disse ele; – mas costuma-se dizer que um antiquíssimo povo chamado sálicos, que não sabiam ler nem escrever, tiveram um tempo uma lei escrita a qual dizia que em terra sálica nenhuma filha podia herdar; e essa lei foi adotada em terras não sálicas. – Pois eu – respondi – casso-a por minha conta; afirmastes-me que essa princesa é encantadora e caridosa; portanto ela teria um direito incontestável à coroa se a infelicidade a tornasse única remanescente do sangue real: minha mãe herdou de seu pai e eu quero que a princesa herde do seu”.
     No dia seguinte o meu processo foi julgado numa das câmaras do parlamento: perdi por unanimidade; explicou-me o meu advogado que eu teria ganho também por unanimidade numa outra câmara. “Eis uma coisa bem cômica – disse-lhe eu; – de modo que, cada câmara, cada lei. – Sim, – disse ele – há vinte e cinco comentários sobre a lei municipal de Paris; isto é, provou-se vinte e cinco vezes que a lei municipal de Paris está errada; e se houvesse vinte e cinco câmaras de juízes haveria também vinte e cinco jurisprudências diferentes. Temos, – continuou ele – a quinze léguas de Paris uma província chamada Normandia, onde seríeis julgado de forma muito diferente daqui”.
     Isto deu-me vontade de ver a Normandia. Para lá me dirigi com um de meus irmãos. Encontramos no primeiro hotel um jovem que se lamentava, desesperado; perguntando-lhe em qual a causa de sua desgraça, respondeu-me que era ter um irmão mais velho.
     — Em que consiste pois a grande desgraça de ter um irmão mais velho? – perguntei-lhe; – meu irmão é mais velho do que eu e no entanto vivemos muito bem juntos.
     — Ah! senhor, – disse-me ele, – a lei aqui tudo concede aos primogênitos sem nada deixar aos caçulas.
     — Tendes razão – disse-lhe eu – de estar zangado; em nossa cidade repartimos igualmente, e nem sempre os irmãos se estimam melhor por isso.”
     Essas pequenas aventuras proporcionaram-me belas e profundas reflexões sobre as leis, e verifiquei serem elas como nossos trajes: em Constantinopla fui obrigado a usar um dólman, em Paris um gibão.
     Se todas as leis humanas são apenas convenções, disse eu, o que vale é fazer-se um bom contrato. Os burgueses de Deli e Agra dizem ter feito um péssimo contrato com Tamerlão; os burgueses de Londres felicitam-se pelo ótimo ajuste que fizeram com o rei Guilherme de Orange.
     Um cidadão de Londres dizia-me certo dia: “É a necessidade que faz as leis, e a força as faz observar”. Perguntei-lhe se a força não fazia também leis em algumas ocasiões, e se Guilherme, o Bastardo e o Conquistador, não lhes havia dado ordens sem estabelecer contrato algum. “Sim", – disse ele – “nesse tempo éramos uns bois; Guilherme nos colocou uma canga e nos fez caminhar a golpes de aguilhão; depois nos transformamos em homens, porém os cornos nos ficaram e com eles maltratamos todos os que pretendem que trabalhemos para eles e não para nós mesmos”.
     Tomado de todas estas reflexões comprazia-me em pensar que existe uma lei natural, independente de todas as convenções humanas: o fruto de meu trabalho deveria ser meu; devia honrar meu pai e minha mãe; não tenho direito algum sobre a vida do meu próximo e meu próximo não o tem sobre a minha, etc. (...)
     Reuni os agricultores simples e tranquilos de um lado a outro da terra; todos eles convirão em que deve ser permitido vender aos vizinhos o excedente do seu trigo e que a lei contrária é inumana e absurda; que as moedas representativas dos gêneros deverão ser tão puras como os frutos da terra; que um pai de família deverá ser dono de sua casa; que a religião deve reunir os homens a fim de os unir e não para fazer deles fanáticos e perseguidores; que os que trabalham não devem ser privados dos frutos de seu trabalho com o fim de alimentar a superstição e a ociosidade: eles farão numa hora trinta leis desta espécie, todas úteis ao gênero humano.
     Chegue porém Tamerlão e subjugue a Índia; então não vereis senão leis arbitrárias. Uma asfixiará uma província para enriquecer um rendeiro de Tamerlão; outra transformará num crime de lesa majestade o ter falado mal da mulher do primeiro camarista de um raja; a terceira apoderar-se-á da metade da colheita do agricultor, contestando-lhe o resto; enfim existirão leis mediante as quais um bedel tártaro virá arrancar vossos filhos do berço, fará do mais robusto um soldado e do mais fraco um eunuco, deixando o pai e a mãe sem consolo.
     Ora, que vale melhor ser: o cão de Tamerlão ou seu súdito? É claro que a regalia do seu cão é muito superior.”


     “Vossa vontade não é livre mas vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer.


MAU
     Vivem a gritar-nos que a natureza humana é essencialmente perversa, que o homem nasceu mau e filho do diabo. Nada menos ponderado: porque, meu amigo, tu que me dizes que toda gente nasceu perversa, tu me advertes pois de que nasceste tal, que é preciso que eu desconfie de ti como de uma raposa ou de um crocodilo. — Oh! nada disso! — dizes, — eu me regenerei, não sou nem herege nem infiel, podeis fiar-vos em mim. — Mas o resto do gênero humano, que é ou herege ou o que chamas infiel, não será pois um conjunto de monstros? E todas as vezes que falares a um luterano ou a um turco deverás estar certo de que te roubarão ou assassinarão: pois são filhos do diabo; nasceram ruins; um nada tem de regenerado e o outro é degenerado. Seria muito mais razoável, muito mais belo, dizer aos homens: Nascestes bons; vede quão afrontoso seria corromper a pureza do vosso ser. Seria de mister proceder com o gênero humano como procedemos com os homens em particular. Se um cônego leva uma vida escandalosa, nós lhe dizemos: “É possível que desonreis a dignidade de cônego?” Faz-se lembrar a um magistrado que ele tem a honra de ser conselheiro do rei e que deve dar o exemplo. Diz-se a um soldado a fim de encorajá-lo: “Recorda que pertences ao regimento de  Champagne” Dever-se-ia dizer a todo indivíduo: “Lembra-te de dignidade de homem”.
     E, com efeito, não obstante a possuirmos, temos sempre necessidade dela: pois que quer dizer esta frase frequentemente empregada em todos os povos, concentrai-vos em vós mesmos? Se houvésseis nascido filho do diabo, se vossa origem fosse criminosa, se vosso sangue fosse composto de um licor infernal, esta expressão concentrai-vos em vós mesmos significaria: consultai, segui vossa natureza diabólica, sede impostor, assassino, é a lei de vosso pai.
     O homem não é ruim de nascimento; torna-se depois, assim como adoece. Alguns médicos se lhe apresentam e dizem: “Nascestes já doente.” Pile está perfeitamente certo de que esses médicos, por mais que façam, não o curarão se sua doença é inerente a sua natureza; esses próprios argumentadores são bem doentes.
     Reuni todas as crianças do universo, e não vereis nelas senão inocência, doçura e timidez; se houvessem nascido más, malfeitoras, cruéis, mostrariam algum sinal, tal como as serpentezinhas procuram morder e os tigrinhos arranhar.
     Mas a natureza não concedeu ao homem mais armas ofensivas do que aos coelhos e aos pássaros, não lhes pode dar um instinto que os conduza à destruição.
     Portanto o homem não é mau de nascimento. Por que então existe tão grande número de infetados por essa peste da ruindade? É que aqueles que os dirigem, sendo colhidos pela doença, comunicam-na ao resto dos homens, como uma mulher atacada do mal que Cristóvão Colombo trouxe da América espalha esse veneno de extremo a outro da Europa. O primeiro ambicioso corrompeu a terra.
     Ides dizer-me que esse primeiro monstro desenvolveu o germe do orgulho, da rapina, da fraude, da crueldade, que existe em todos os homens. Sei muito bem que em geral a maioria de nossos irmãos pode adquirir esses defeitos; estará porém toda gente contaminada pela febre pútrida, pelos cálculos renais, apenas por que todos estão expostos?
     Existem nações inteiras completamente boas: os filadélfios, os banianos nunca mataram pessoa alguma; os chineses, os povos de Tonquim, de Lao, de Siam, do próprio Japão, durante várias centenas de anos não conheceram a guerra. Apenas de dez em dez anos é possível ver um desses crimes que comovem a natureza humana nas cidades de Roma, Veneza, Paris, Londres, Amsterdã, cidades onde, de feito, a cupidez, mãe de todos os crimes, é extensa.
     Se os homens fossem essencialmente maus, se nascessem completamente submetidos a um ser tão malfeitor como infeliz, que para se vingar de seus suplícios lhes inspirasse todos os seus furores, ver-se-iam todas as manhãs maridos assassinados por suas mulheres e pais por seus filhos, como podemos contemplar no alvorecer do dia frangos estrangulados por uma doninha que lhes sugou o sangue.
     Se houver um bilhão de homens sobre a terra será muito; isto dá aproximadamente quinhentos milhões de mulheres que costuram, que cozinham, que alimentam seus filhos, que tomam conta da casa ou cabana própria, e que falam um certo mal de suas vizinhas. Não vejo que grande mal essas pobres inocentes fazem sobre a terra. Sobre esse número de habitantes do globo há duzentos milhões de crianças no mínimo, que com toda certeza não saqueiam nem matam, e cerca de outro tanto de velhos e doentes que o não podem fazer. Restarão quando muito cem milhões de jovens robustos e capazes de praticar o crime. Desses cem milhões noventa estão continuamente ocupados em forçar a terra, mercê de um trabalho prodigioso, a fim de que esta lhes dê alimentos e roupas; esses não têm igualmente tempo para fazer o mal.
     Nos dez milhões restantes estão compreendidos os ociosos que prezam a boa companhia das mesas, que desejam viver doce e tranquilamente, os homens de talento ocupados com suas profissões, os magistrados, os padres, visivelmente interessados em levar uma vida pura, ao menos na aparência. Como verdadeiros maus, portanto, apenas restarão alguns políticos, amadores ou profissionais, e alguns milhares de vagabundos que lhes alugam os seus serviços. Ora, impossível seria atuar um milhão de bestas ferozes ao mesmo tempo; e nesse número estão incluídos os assaltantes das estradas reais. Tendes, pois, quando muito, sobre a terra, nos tempos mais borrascosos, um homem sobre mil a quem se pode chamar mau.
     Há pois infinitamente menos mal sobre a terra do que se diz e pensa. E é ainda muito, sem dúvida: assistimos a desgraças e crimes horríveis; porém o prazer de se lamentar e exagerar é tão grande que à mínima arranhadela seríeis capaz de bradar que a terra regurgita de sangue. Fostes enganado, todos os homens são perjuros. Um espírito melancólico que sofreu uma injustiça vê o universo coberto de danados, como um jovem voluptuoso ceando com sua dama, ao sair da Ópera, não acredita na existência de infelizes.


     “Pois bem, o que será melhor – que vossa pátria seja um estado monárquico ou um estado republicano? Há quatro mil anos se discute essa questão. Perguntai a solução aos ricos, eles preferem a aristocracia; interrogai o povo, ele quer a democracia: apenas os reis preferem a realeza. Como, portanto, é possível que quase toda a terra seja governada por monarcas? Perguntai-o aos ratos que propuseram pendurar uma campainha no pescoço do gato*. Mas, na verdade, a verdadeira razão é, como se disse, que os homens são mui raramente dignos de se governar por si próprios.
     É deplorável que quase sempre para ser bom patriota deva-se ser inimigo do resto dos homens. O velho Catão, esse ótimo cidadão, dizia sempre no senado:
     “Tal é minha opinião, e que se arruine Cartago”. Ser bom patriota é desejar que sua cidade se enriqueça pelo comércio e seja poderosa pelas armas. É claro que um país não pode ganhar sem que outro perca e que não pode vencer sem fazer desgraçados. Tal é, pois, a condição humana, que desejar a grandeza do seu país é desejar mal aos seus vizinhos. Aquele que pretendesse que a sua pátria não fosse jamais nem menor nem maior, nem mais rica nem mais pobre, seria o cidadão do universo.”
*: La Fontaine, livro II, fábula II.


     “Casaubon não podia aprovar a maneira por que Pedro tratou o bom Ananias e Safira, sua mulher. Com que direito, diz Casaubon, um judeu escravo dos romanos pende ordenar ou admitir que todos os que acreditassem em Jesus deveriam vender suas herdades e trazer o resultado de sua venda a seus pés? Se algum anabatista, em Londres ordenasse a mesma coisa a seus irmãos, não seria preso como sedutor sedicioso, como ladrão que não se deixaria de enviar a Tyburn? Não é horrível fazer Ananias morrer porque, tendo vendido seus fundos e dado o dinheiro a Pedro, reteve para si e sua mulher alguns escudos a fim de não morrer de fome? Apenas Ananias foi morto, sua mulher chegou. Pedro, em vez de adverti-la caridosamente de que acabava de matar seu marido de apoplexia por haver guardado alguns óbulos e de lha recomendar que tomasse cuidado consigo própria, deixa-a cair numa armadilha. Pergunta-lhe se seu marido deu todo seu dinheiro aos santos. A boa mulher responde que sim e recebe morte instantânea. Isso é duro.
     Conríngio pergunta por que Pedro, que matou assim esses que lhe deram todos os seus bens, não mandou antes matar todos os doutores que fizeram Jesus Cristo morrer e que o fustigaram a ele próprio mais de uma vez? Ó Pedro! fazeis morrer dois cristãos que vos deram sua esmola e deixais viver aqueles que crucificaram vosso Deus!
     Por muito que pareça que Conríngio não estava em país de inquisição ao fazer esses quesitos ousados. Erasmo, a propósito de Pedro, acentuou uma coisa bem singular: que o chefe da religião cristã começou seu apostolado por renegar Jesus Cristo, e que o primeiro pontífice dos judeus começara seu ministério por construir um bezerro de ouro e adorá-lo.”


     “Depois da nossa santa religião, que sem dúvida alguma é a única boa, qual será a menos má?
     Não seria a mais simples? Não seria aquela que ensinasse muita moral e pouquíssimos dogmas? A que tendesse a tornar os homens justos sem os tornar absurdos? A que não ordenasse absolutamente crer em coisas impossíveis, contraditórias, injuriosas à Deidade e perniciosas ao gênero humano, e que não ousasse ameaçar com as penas eternas os que tivessem o senso comum? Não seria aquela que não sustentasse sua crença por intermédio de tribunais nem inundasse a terra de sangue por causa de sofismas ininteligíveis? Aquela que de um equívoco, um jogo de palavras e duas ou três cartas sobrepostas não fizesse um soberano, e um Deus de um padre frequentemente incestuoso, homicida e envenenador? A que não submetesse os reis a esse padre? A que não ensinasse senão a adoração de um Deus, a justiça, a tolerância e a humanidade?”


     “Os tempos mais supersticiosos foram sempre os dos crimes mais horríveis.”


     “Que é a tolerância? É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza.”


     “É claro que todo indivíduo que persegue um homem, seu irmão, porque não é da sua mesma opinião, é um monstro.”