A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Surrealismo – Cathrin Klingsöhr-Leroy

Editora: Paisagem
ISBN: 978-38-3650-083-8
Opinião★★★☆☆
Páginas: 98
Tentar o impossível – René Magritte

     “Eu obriguei-me a contradizer-me para evitar conformar-me com o meu próprio gosto.”
(Marcel Duchamp)


      “Deem-me duas horas por dia de atividade, e eu usarei as outras vinte e duas em sonhos.”
(Luis Buñuel)


      “Felizmente, algures entre o acaso e o mistério está a imaginação, a única coisa que protege a nossa liberdade, independentemente do fato de as pessoas continuarem a tentar reduzi-la ou matá-la completamente.”
(Luis Buñuel)


      “O segredo da arte reside no fato não de procurar, mas sim de encontrar.”
(Pablo Picasso)


      “Cristóvão Colombo devia ter partido à descoberta da América com um barco cheio de loucos.”
(André Breton)

A Boneca (Die Puppe) – Hans Bellmer


      “Antigamente, os pintores costumavam ser loucos e os compradores de pintura espertos. Agora, os pintores são espertos e os compradores são loucos.”
(Giorgio de Chirico)

As musas desinquietantes (Le muse inquietanti) - (Giorgio de Chirico)


      “Não sou eu que sou o palhaço, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão inconscientemente ingênua, que joga o jogo da seriedade para melhor esconder a sua loucura.”
(Salvador Dalí)

A persistência da memória (a. k. a.: relógios moles ou o tempo a fugir) (La persistence de la mémoire) – Salvador Dalí


      “A diferença entre mim e os surrealistas é que eu sou um surrealista.”
(Salvador Dalí)

Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã um segundo antes de acordar (Revê causé par le vol d’une abeille autor d’une granade, une seconde avant l’éveil) - Salvador Dalí


      “Um pintor perde-se quando se encontra a si próprio.”
(Max Ernst)

Tempo trespassado (La dureé poignardée) – René Magritte


O império das luzes (L’empire des lumières) – René Magritte


      “A pintura tem sempre um pé na arquitetura, um pé nos sonhos.”
(Matta)


      “Mais importante do que uma obra de arte propriamente dita é o seu efeito. A arte pode desaparecer, uma pintura pode ser destruída, o que conta é a semente.”
(Joan Miró)


      “A arte lava a alma da sujidade quotidiana.”
(Pablo Picasso)
  

      “Eu pinto as coisas como as penso, não como as vejo.”
(Pablo Picasso)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A queda - Albert Camus

Editora: BestBolso
ISBN: 978-85-7799-008-5
Opinião★★★★☆
Páginas: 112

         “Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções.”


“Consolo-me dizendo a mim mesmo que, afinal, aqueles que falam de maneira ininteligível também não são puros.”


“Quanto a mim, moro no bairro judeu, ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados – é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”


“Eu era de origem honesta, mas obscura (meu pai era militar) e, no entanto, certas manhãs, humildemente o confesso, sentia-me um filho de rei ou uma sarça ardente. Tratava-se, repare bem, de algo diferente da certeza em que eu vivia de ser mais inteligente do que todo mundo. Tal certeza, aliás, não tem consequência, pelo fato de ser compartilhada por tantos imbecis”.


“A amizade é menos simples. Sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meios de nos livrarmos dela; temos de enfrentá-la.”


“Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar corresponde a respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais desfavorecidos conseguem respirar. O último da escala social ainda tem o cônjuge ou o filho. Quando é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se, sem que alguém tenha o direito de responder: “Não se responde ao pai”, conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo, senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda razão pode opor-se uma outra: nunca mais se acabaria. A força, pelo contrário, resolve tudo. Levou tempo, mas conseguimos compreender isso. Por exemplo, deve ter notado, a nossa velha Europa filosofa, enfim, da melhor maneira. Já não dizemos, como nos tempos ingênuos: “Eu penso assim. Quais são as suas objeções?”. Tornamo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado. “Esta é a verdade”, dizemos. “Podemos até discuti-la, isso não nos interessa. Mas, dentro de alguns anos, lá estará a polícia para lhes mostrar quem tem razão”.”


“Cá entre nós, a servidão, de preferência sorridente, é, portanto, inevitável. Mas não devemos reconhecer isso. Quem não pode deixar de ter escravos, não fará melhor chamando-os de homens livres? Por princípio, em primeiro lugar, e depois para não desesperá-los. Esta compensação certamente lhes é devida, não acha? Desse modo, eles continuarão a sorrir e nós ficaremos com a consciência tranqüila. Sem isso, seríamos forçados a mudar de opinião, ficaríamos loucos de dor, ou até modestos, deve-se temer tudo. Por isso, nada de insígnias, e isto é escandaloso. Aliás, se todo mundo se sentasse à mesa e ostentasse sua verdadeira profissão, sua identidade, já nem saberíamos para que lado haveríamos de nos voltar! Imagine os cartões de visita: Dupont, filósofo apavorado ou proprietário cristão ou humanista adúltero, na verdade, nós temos a escolha. Mas seria o inferno! Sim, o inferno deve ser assim: ruas com insígnias e nenhuma possibilidade de explicação. Fica-se classificado de uma vez para sempre.”


“Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”


“Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas, e que efetivamente as perdoam, mas nunca as esquecem? Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las. E, se alguém se julgasse detestado por mim, custava a acreditar que estava sendo saudado com um largo sorriso. Segundo sua índole, admirava então minha grandeza de alma ou desprezava minha desfaçatez, sem pensar que minha razão era mais simples: eu havia esquecido até o seu nome. O mesmo defeito que me tornava indiferente ou ingrato fazia-me magnânimo.”


“É preciso que se saiba, antes de tudo, que sempre tive êxito com as mulheres, e sem grande esforço. Não me refiro ao êxito em fazê-las felizes, tampouco em fazer-me feliz por intermédio delas. Não; ter êxito, simplesmente. Eu era bem-sucedido, mais ou menos quando queria. Achavam que eu tinha certo charme, imagine! Sabe o que é isto: um modo de ouvir sim como resposta, sem ter feito uma pergunta clara.”


“Depois de certa idade, todo homem é responsável pelo seu rosto.”


“Em cada caso, minha sensualidade, para só falar dela, era tão real que, mesmo por uma aventura de dez minutos, eu renegaria pai e mãe, mesmo se tivesse de lamentar isso amargamente. Que digo eu! Sobretudo por uma aventura de dez minutos, e mais ainda, se eu tivesse a certeza de que ela não teria futuro. Eu tinha princípios, é claro; por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. Simplesmente, eu deixava, com toda sinceridade, alguns dias antes, de ter amizade pelos maridos.”


“Nenhum homem é hipócrita em seus prazeres.”


“Digo amigos, aliás, por princípio. Não tenho mais amigos, só tenho cúmplices.”


“Os mártires, caro amigo, têm de escolher entre serem esquecidos, ridicularizados, ou usados. Quanto a serem compreendidos, isso, nunca.”


“Eis o que nenhum homem (exceto os que não vivem, quero dizer, os sábios) consegue suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como no fundo de sua natureza, é a ideia de sua inocência.”


“Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Atenderá ao profundo desejo deles e provará duplamente sua afeição.”


“Há, na verdade, esforços e convicções que nunca compreendi. Eu olhava sempre com um ar de espanto e com um pouco de suspeita aquelas estranhas criaturas que morriam por dinheiro e se desesperavam com a perda de uma “situação” ou se sacrificavam com grande ostentação pela prosperidade da família. Eu compreendia melhor aquele amigo que havia decidido nunca mais fumar e que, pela força de vontade, fora bem-sucedido. Certa manhã, abriu o jornal, leu que a primeira bomba H havia explodido, informou-se sobre seus admiráveis efeitos e entrou sem demora numa tabacaria.”


“Foi nesse momento que o pensamento da morte irrompeu em minha vida diária. Contava os anos que me separavam de meu fim. Buscava exemplos de homens de minha idade que já estivessem mortos. E me atormentava a ideia de que não teria tempo de realizar a minha tarefa. Que tarefa? Eu nem sabia.”


“E então? Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que, aliás, ela foi, por um breve tempo, precisamente durante três anos, e não se chamava religião. Desde então, falta sabão, andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. Todos culpados, todos castigados, escarremo-nos, e pronto! Já para o desconforto! Basta ver quem escarra primeiro, eis tudo. Vou contar-lhes um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias.”
  

“O grande empecilho a evitar não será o de sermos nós os primeiros a nos condenar? É preciso, pois, começar a estender a condenação a todos, sem discriminação, para diluí-la desde já.”

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Memórias de uma Gueixa - Arthur Golden

Editora: Imago
ISBN: 978-85-3120-605-4
Opinião★★★☆☆
Páginas: 460
“– O que está olhando?
– Sinto muito, senhora. Eu estava olhando o seu quimono – eu disse.
– Nunca vi nada assim.
Deve ter sido a resposta certa – se é que havia resposta certa –, porque ela deu uma espécie de risada, embora soasse como tosse.
– Então você gostou, hem? – disse, continuando a tossir, ou rir, eu não sabia. – Você tem ideia de quanto ele custou?
– Não, senhora.
– Mais do que você, com certeza.”


“É por isso que os sonhos podem ser coisas tão perigosas: queimam como fogo, e às vezes nos consomem completamente.”


“Um homem só se interessa por uma coisa.”


“Mas, sabe, eu acho fascinante que, não importa como nós homens pareçamos diferentes, por baixo de tudo somos exatamente iguais.”


“Desde que me mudei para Nova Iorque entendi o que a palavra “gueixa” realmente significa para a maioria dos ocidentais. De tempos em tempos, em festas elegantes, fui apresentada a uma jovem ou outra usando um vestido magnífico e joias. Quando ela fica sabendo que um dia eu fui gueixa em Kioto, dá uma espécie de sorriso, embora os cantos de sua boca não se ergam como deveriam. Ela não sabe o que dizer. Então o ônus da conversa recai sobre o homem ou a mulher que me apresentou a ela – porque nunca aprendi muito inglês, mesmo depois de todos estes anos. Naturalmente, a essa altura não faria muito sentido nem tentar, porque a mulher estará pensando: “Meu Deus... estou falando com uma prostituta...” Logo depois ela é salva pelo seu acompanhante, um homem rico trinta ou quarenta anos mais velho que ela. Bem, muitas vezes imagino por que ela não percebe quanto realmente temos em comum. Ela é uma mulher sustentada, você entende, e antigamente eu também fui.”


“A adversidade é como um longo vento forte. Não quero apenas dizer que ela nos afasta de lugares aonde poderíamos ir, mas também arranca de nós tudo, menos as coisas que não podem ser arrancadas, de modo que depois nos vemos como realmente somos, e não apenas como gostaríamos de ser.”


“– Olhe só para você, Nobu-san. Rugas tão fundas entre os olhos como sulcos numa estrada.
Ele relaxou um pouco os músculos em torno dos olhos, de modo que a ruga pareceu se desfazer.
– Não sou mais tão jovem como já fui, sabe? – ele disse.
– E o que quer dizer isso?
– Quer dizer que algumas rugas se tornaram traços permanentes e não vão desaparecer só porque você diz que deviam.
– Há rugas boas e rugas más, Nobu-san. Nunca esqueça isso.”

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Eneida - Virgílio

Editora: Martins Fontes
ISBN: 978-85-336-2060-5
Opinião★★★☆☆
Páginas: 449

“Pois dentro do espaçoso templo, enquanto
Cada cousa per si passa em resenha,
Aguardando a rainha, enquanto admira
Qual a fortuna seja da cidade,
Dos artistas as mãos rivalizando
Entre si, e das obras o trabalho,
Por ordem vê pintadas as pelejas
De todas a guerra Ilíaca, por fama
Já pelo mundo inteiro divulgadas.
Príamo, e o filho vê d’Atreu, e Aquiles
Para com ambos eles implacável.
Pára absorto, e co’as lágrimas nos olhos,
Acates, disse, que lugar no globo,
Que região existe, que já cheia
Dos nossos infortúnios não esteja?
Eis Príamo: a virtude aqui seus prêmios
Tem, a desdita lágrimas, e aos males
Da humanidade as almas são sensíveis.
Desvanece os temores: esta fama
Alguma salvação há de trazer-te.”


(...) “Meus próprios males
Me ensinaram a ser compadecida”.


“Que sonhos indecisa, Ana, me aterram!
Que novo hóspede entrou em nossa casa!
Quão gentil! de quão forte peito e braço!
Qu’é progênie dos deuses, creio, e certo
Não creio em vão. Temor vileza indica.
Ai, quanto o hão perseguido adversos fados!
Quantas batalhas conta pelejadas!
Se n’alma fixo e imoto eu não tivesse
Em laço conjugal não mais unir-me
A homem algum, depois qu’o amor primeiro
Com a morte falseou minha esperança;
Se do tálamo tão aborrecida,
E fachos de Himeneu, não estivesse,
Talvez a esta só culpa eu sucumbira.
Ana, (o confesso enfim), depois do infausto
Destino de Siqueu, mísero esposo;
Depois que ensanguentou irmão cruento
Com assassínio atroz nossos penates,
Este só atraiu os meus sentidos,
Meu ânimo impeliu, prostrou de todo:
Reconheço os sinais da antiga chama.
Mas antes se abra a terra e nos abismos
Me sepulte, ou o padre omnipotente
Co’um raio às sombras e profunda noite,
Ó santa Pudicícia, qu’eu te ofenda,
Ou chegue a violar os teus preceitos!
Aquele que me uniu a si primeiro,
Esse levou consigo os meus amores:
Ele os tenha, ele os guarde no sepulcro!
Disse, e banhou de lágrimas o seio.”


“Aonde, ó Fábios, me levais cansado?
Tu, Máximo, és aquele que nos salvas
A República só temporizando.
Com mais brandura os respirantes bronzes
Fundirão outros, não duvido, e vultos
Farão surgir do mármore animados;
Terão mais eloquentes oradores,
As voltas mostrarão do céu co’a vara
E dirão por que modo os astros surgem.
Tu, Romano, a reger co’o império os povos
Te aplica: estas serão as tuas artes:
E impor as leis da paz, aos submetidos
Perdoar clemente, e debelar os soberbos.”


“Os Enéades súbito turbados
O odioso semblante reconhecem
E os membros giganteus! Então de um salto
Pândaro ingente avança e ardendo em ira
Pela fraterna morte: “Não é este
O palácio dotal (lhe diz) de Amata,
Nem Árdea te contém dentro em seus muros.
Estás em campo imigo e tem por certo
Que com vida escapar te é impossível.”
Com sorrir desdenhoso lhe responde
Turno: “Se tens denodo, principia,
Vamos às mãos, que a Príamo irás breve
Contar que novo Aquiles deparaste.”
Disse, e Pândaro logo uma haste rude
Ainda com os nós e a casca crua
Com quanta força tinha lhe dispara:
Recebe o vento o golpe, que a Satúrnia
Juno, dos céus baixando, lh’o desvia,
E a hasta na porta se cravou tremendo.
“D’esta lança que o braço meu te vibra
Agora tu não fugirás por certo,
Que da lança e do golpe o autor é outro.”
Disse, e co’a espada erguida se prolonga,
Com desumana cutilada o colhe
Por entre as fontes e as imberbes faces,
De meio a meio fende-lhe a cabeça.
C’o baque e peso ingente o chão se abala,
Já pela terra lânguidos os membros
E do cérebro as armas salpicadas
Morrendo estira; em duas metades
A cabeça lhe pende dividida.”


“Por que o silêncio a quebrar me obrigas?
E a concentrada dor mostrar com vozes?”


“A fortuna é de audazes”.


“Mal que de longe os batalhões turbando
Purpúreo no cocar, purpúreo em roupas,
Dom da noiva, Mezêncio o vê em guisa
De faminto leão, que, estimulado
De apetite frenético, mil voltas
Já dera em torno de um curral, se acaso
Veado alticornígero descobre,
Ou fugaz cabra, as fundas fauces abre,
Ouriça as jubas, fica-se estendido
Da presa sobre as vísceras e lava
Em negro sangue os truculentos beiços;
Assim o audaz Mezêncio se arremessa
Dos inimigos no esquadrão cerrado.”

“Já o féretro e grades outros tecem
De vergônteas e de roble e arbúteas varas
E o pronto leito de folhagem cobrem.
Sobre esta agreste cama o moço estendem,
Qual flor colhida por virgíneos dedos
De branda viola, ou lânguido jacinto
De quem inda o fulgor, inda a beleza
Não fugiram de todo, bem que a terra
Já forças lhe não dá, nem dá sustento.”