sexta-feira, 29 de abril de 2011

O homem duplicado – José Saramago

Editora: Companhia de Bolso
ISBN: 978-85-359-1288-3
Opinião★★★☆☆
Páginas: 288

“Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente.”


“É a carreira e o trabalho que me têm a mim, não eu a eles.”


“Por muito esforço que tenhamos de fazer, sabemos que só abrindo os olhos se pode sair de um pesadelo, mas o remédio, neste caso, foi fechá-los, não os próprios, mas os do reflexo no espelho.”


“Não é porque o burro deu o coice que lhe vai partir a perna.”


“Não se deixe enganar, o senso comum é demasiado comum para ser realmente senso, no fundo não passa de um capítulo da estatística, e o mais vulgarizado de todos.”


“O saber é realmente uma coisa muito bonita, Depende do que se saiba, Também deverá depender de quem sabe, acho eu.”


“Provavelmente, ler também é uma forma de estar lá.”


“Expliquei pela centésima vez o meu ponto de vista e creio que consegui convencê-lo finalmente de que o disparate era um pouco menos tolo do que lhe tinha parecido até agora, Uma vitória, Que não servirá para nada, De facto, nunca se sabe muito bem para que servem as vitórias, suspirou o professor de Matemática, Mas as derrotas sabe-se muito bem para que servem, sabem-no sobretudo os que lançaram na batalha tudo o que eram e tudo quanto tinham, mas desta permanente lição da História ninguém faz caso.”


“É de todos conhecido, porém, que a enorme carga de tradição, hábitos e costumes que ocupa a maior parte do nosso cérebro lastra sem piedade as ideias mais brilhantes e inovadoras de que a parte restante ainda é capaz, e se é verdade que em alguns casos esta carga consegue equilibrar desgovernos e desmandos de imaginação que Deus sabe aonde nos levariam se fossem deixados à solta, também não é menos verdade que ela tem, com frequência, artes de submeter subtilmente a tropismos inconscientes o que críamos ser a nossa liberdade de actuar, como uma planta que não sabe porque terá sempre de inclinar-se para o lado de onde lhe vem a luz.”


“A vida, querido Máximo, tem-me ensinado que nenhuma coisa é simples, que só às vezes o parece, e que é justamente quando mais o parecer que mais nos convirá duvidar.”


“Diz a sabedoria popular que nunca se pode ter tudo, e não lhe falta razão, o balanço das vidas humanas joga constantemente sobre o ganho e o perdido, o problema está na impossibilidade, igualmente humana, de nos pormos de acordo sobre os méritos relativos do que se deveria perder e do que se deveria ganhar, por isso o mundo está no estado em que o vemos. Maria da Paz também pensa, mas, sendo mulher, portanto mais próxima das coisas elementares e essenciais, recorda a angústia que trazia na alma quando entrou nesta casa, a sua certeza de que se iria daqui vencida e humilhada, e afinal acontecera o que em nenhum momento lhe tinha passado pela fantasia, estar na cama com o homem a quem amava, o que mostra quanto tem ainda de aprender esta mulher se ignora que muitas dramáticas discussões dos casais é ali que acabam e se resolvem, não porque os exercícios do sexo sejam a panaceia de todos os males físicos e morais, embora não falte quem assim pense, mas porque, esgotadas as forças dos corpos, os espíritos aproveitam para levantar timidamente o dedo e pedir autorização para entrar, perguntam se se lhes permite fazer ouvir as suas razões, e se eles, corpos, estão preparados para lhes dar atenção. É então quando o homem diz à mulher, ou a mulher ao homem, Que loucos somos, que estúpidos temos sido, e um deles, misericordiosamente, cala a resposta justa que seria, Tu, talvez, eu só tenho estado à tua espera. Ainda que pareça impossível, é este silêncio cheio de palavras não ditas que salva o que se julgava perdido, como uma jangada que avança do nevoeiro a pedir os seus marinheiros, com os seus remos e a sua bússola, a sua vela e a sua arca do pão.”


“É tanto o que temos para dizer quando calamos.”


“Já pensava que não me telefonarias, disse Maria da Paz, Como vês, enganaste-te, aqui estou, O teu silêncio teria querido dizer que o dia de hoje não havia representado para ti o mesmo que para mim, O que tenha representado, representou-o para ambos, Mas talvez não da mesma maneira nem pelas mesmas razões, Faltam-nos os instrumentos para medir essas diferenças, se as houve, Contínuas a gostar de mim, Sim, continuo a gostar de ti, Não o expressas com muito entusiasmo, não fizeste mais que repetir as palavras que eu disse, Explica-me por que não deveriam elas servir-me a mim, se a ti te serviram, Porque ao serem repetidas perdem uma parte do poder de convencimento que teriam se tivessem sido ditas em primeiro lugar.”


“Todos os dicionários juntos não contêm nem metade os termos de que precisaríamos para nos entendermos uns aos outros.”


“As formas da crueldade são muitíssimas, algumas até se disfarçam de indiferença ou de indolência.”


“De uma maneira ou outra neste mundo tudo acaba por se resolver.”


“Quanto mais te disfarçares, mais te parecerás a ti próprio.”


“Não se censurou porque aquelas ideias em realidade não lhe pertenciam, tinham sido o fruto equívoco de uma imaginação que, sacudida por uma emoção violenta e fora do comum, saltara dos carris, o que conta é que está lúcida e alerta neste momento, senhora dos seus pensamentos e do seu querer, as alucinações da noite, sejam as da carne, sejam as do espírito, sempre se dissiparam no ar com as primeiras claridades da manhã, essas que reordenam o mundo e o recolocam na sua órbita de sempre, reescrevendo de cada vez os livros da lei.”


“Talvez a ideia correcta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta.”


“Só um senso comum com imaginação de poeta poderia ter sido o inventor da roda.”


“Também em tempos que já lá vão, houve na terra um rei considerado de grande sabedoria que, em um momento de inspiração filosófica fácil, afirmou, supõe-se que com a solenidade inerente ao trono, que debaixo do sol não havia nada de novo. A estas frases não convém tomá-las nunca demasiado a sério, não se dê o caso de as continuarmos a dizer quando tudo à nossa volta já mudou e o próprio sol já não é o que era. Em compensação, não variaram muito os movimentos e os gestos das pessoas, não só desde o terceiro rei de Israel como também desde aquele dia imemorial em que um rosto humano se apercebeu pela primeira vez de si mesmo na superfície lisa de um charco e pensou, Este sou eu.”


“E a Maria da Paz, disseste-lhe o que estava a suceder, perguntou dona Carolina, Não, não a iria sobrecarregar com preocupações que a mim já me custavam tanto a aguentar, Compreendo isso, mas também compreenderia se lho tivesses dito, Considerei que era melhor não lhe falar do caso, E agora que já passou tudo, não lho dirás, Não vale a pena, um dia em que ela me viu mais inquieto prometi-lhe que sim, que lhe diria o que se passava comigo, que naquele momento não podia, mas que um dia lhe contaria tudo, E pelos vistos esse dia não vai chegar, É preferível deixar as coisas como estão, Há situações em que o pior que se pode fazer é deixar as coisas como estão, só serve para lhes dar mais força, Também poderá servir para que se cansem e nos deixem tranquilos, Se gostasses da Maria da Paz, contar-lhe-ias, Eu gosto dela, Gostarás, mas não o bastante, se dormes na mesma cama com uma mulher que te ama e não te abres com ela, pergunto-te que estás a fazer ali, Defende-a como se a conhecesse, Nunca a vi, mas conheço-a, Só o que soube por mim, e não pode ter sido muito, As duas cartas em que me falaste dela, alguns comentários ao telefone, não precisei de mais, Para saber que ela era a mulher que me convinha, Também o poderia ter dito por essas palavras se igualmente pudesse dizer de ti que eras o homem que lhe convinha a ela, E não crê que o fosse, ou que o seja, Talvez não, A solução melhor, portanto, é a mais simples, acabar com a relação que temos mantido, És tu quem o diz, não eu, Há que ser lógicos, minha mãe, se ela me convém, mas eu a ela não, que sentido tem desejar tanto que nos casemos, Para que ela ainda lá estivesse quando tu despertasses, Não ando a dormir, não sou sonâmbulo, tenho a minha vida, o meu trabalho, Há uma parte de ti que dorme desde que nasceste, e o meu medo é que um dia destes sejas obrigado a acordar violentamente, O que a mãe tem é vocação para Cassandra, Que é isso, A pergunta não deve ser que é isso, mas quem é essa, Então ensina-me, sempre ouvi dizer que ensinar quem não sabe é uma obra de misericórdia, A tal Cassandra era filha do rei de Troia, um que se chamava Príamo, e quando os gregos foram pôr o cavalo de madeira às portas da cidade, ela começou a gritar que a cidade seria destruída se o cavalo fosse trazido para dentro, vem tudo explicado em pormenor na Ilíada do Homero, a Ilíada é um poema, Já ouvi falar, e que aconteceu depois, Os troianos acharam que ela estava louca e não fizeram caso dos vaticínios, E depois, Depois a cidade foi assaltada, saqueada, reduzida a cinzas, Portanto essa Cassandra que tu dizes tinha razão, A História ensinou-me que Cassandra tem sempre razão, E tu declaraste que eu tenho vocação para Cassandra, Disse-o e repito, com todo o amor de um filho que tem uma mãe bruxa, Logo, tu és um daqueles troianos que não acreditaram, e por isso Troia foi queimada, Neste caso não há nenhuma Troia para queimar, Quantas Troias com outros nomes e noutros lugares foram queimadas depois dessa, Inúmeras, Não queiras tu então ser mais uma, Não tenho nenhum cavalo de madeira à porta de casa, E se o tiveres, escuta a voz desta Cassandra velha, não o deixes entrar, Estarei atento aos relinchos.”





“Não imaginei que fosses capaz de tanto, é um plano absolutamente diabólico, Humano, meu caro, simplesmente humano, o diabo não faz planos, aliás, se os homens fossem bons, ele nem existiria.”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Querido John – Nicholas Sparks

Editora: Novo Conceito
ISBN: 978-85-63219-02-2
Páginas: 288
Opinião★★★☆☆


“Ela me disse certa vez que a chave para a felicidade é ter sonhos realizáveis.”


“Quando (um soldado) recebe uma ordem, não pode dizer não. Não é nenhum exagero dizer que vidas estão em jogo. Uma decisão errada e seu amigo pode morrer. Este fato determina o trabalho no exército. Esse é o grande erro de muitas pessoas que questionam como os soldados conseguem pôr a própria vida em risco, dia após dia, ou lutar por algo no qual não acreditam. Nem todo mundo consegue. Já trabalhei com soldados de todas as vertentes políticas, conheci alguns que odiavam o exército e outros que queriam fazer carreira. Encontrei gênios e idiotas, mas quando tudo foi dito e feito, fazíamos o que fazíamos um pelo outro. Por amizade. Não pelo país, por patriotismo ou porque somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Você luta pelo seu amigo, para mantê-lo vivo, ele luta por você, e tudo no exército gira em torno dessa simples premissa.”


“Quando você está em dificuldades, olhe as pessoas ao redor e verá que todas estão sofrendo por algo, e para cada uma delas, a situação parece tão difícil como o que você está passando.”



“Quando estamos juntos, tudo é possível.”