segunda-feira, 30 de maio de 2016

A violoncelista – Michael Krüger

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-3590-241-9
Tradução: Sergio Tellaroli
Opinião: **
Páginas: 216 

     “Começara a suar, pois era-me embaraçoso importunar homem tão importante, e tão completamente exausto da longa viagem, com meus farrapos de uma língua que apenas de longe, e somente pela melodia, lembrava o italiano, mas o escritor pareceu-me tão absorto no planejamento das horas restantes até o recital que não teve tempo de dedicar atenção àquele meu embaraço. Curiosa criatura. Ao contrário dos colegas alemães e do próprio Günter – de quem eu obtivera todos os detalhes sobre a vida do italiano –, ele parecia não se preocupar muito com sua obra. Odiava aparições, odiava recitais, jamais comparecia a homenagens se demandavam dele algum discurso, e recusava premiações. Tinha mais de sessenta anos e morava ainda com a mãe numa casa atrás do panteão. Ela cerzia suas meias, punha suas cartas no correio e atendia o telefone, lamentando que o filho – de pé e trêmulo ao seu lado – não estivesse em casa. Dormiam em quartos separados, mas sempre de porta aberta. Eu o considerava um grande humorista, um Gogol italiano; ele se via como um grande autor trágico, o que, afinal, prolongando as duas linhas o bastante, dava no mesmo.”


     “Muitas vidas são consumidas para que uma dê certo, disse-me ele: aqui na Hungria, cem para uma.”


     “Enquanto pensava numa boa razão para partir pela quarta vez à procura do edifício, um cão se juntou a mim, jovem e sarnento; as orelhas, apartadas de um modo singular, pareciam ter sido parafusadas dos dois lados da cabeça; um cão que evidentemente desejava tomar parte de meu destino. É certo que ele mantinha um olho na cestinha contendo o jantar, por entre cujas malhas largas entrevia-se o papel pardo de embrulho que envolvia não apenas o peixe e os legumes, mas também a linguiça que eu comprara para o ulterior café da manhã; mas seu outro olho, ou assim acreditei, apreendera meu problema: sua escura amizade dirigia-se apenas a mim, o soturno ascético. Como estivéssemos defronte à casa de Lukács, chamei-o György, o que pareceu tê-lo agradado, pois ele se pôs de imediato a abanar amistoso as orelhas estropiadas. Enquanto eu o alimentava com pedacinhos de linguiças que, apoiados nas patas traseiras e feito um aluno aplicado, ele deglutia sem fazer nenhum movimento reconhecível de mastigação, György contou-me sua terrível história, que, a despeito de todo o exagero de que somente um cão vadio é capaz, me agradou de tal maneira que não me restou alternativa senão lançar-lhe ainda goela abaixo a última pontinha de linguiça. Você esta exagerando, György, disse eu, depois de ele haver afirmado conhecer cada gato-pingado daquele nobre bairro. Todo cachorro húngaro exagera, na hora decisiva da linguiça, mas seus exageros são desmedidos.”


     “E, quando eu tentava me concentrar para, depois de todos os desaforos daquela noite, encontrar o sono, ali estava ela, sentada na beirada da cama, como que trazida pelo vento.
     Você já esta dormindo?, perguntou.
     Não, respondi, estou pensando.
     E no que pensa um homem à meia-noite?
     Em nada.
     Você é budista, para conseguir não pensar em nada?
     Não, rebati, sou um cristão apaixonado pelo cansaço, perguntando-se que pecados cometeu para que a filha de vinte e dois anos de uma amiga húngara o atormente desta maneira.
     Eu apenas disse a verdade, respondeu ela. E Maria concorda comigo. Disse que eu tenho de ficar de olho em você, do contrário você se arruína sozinho. Você precisa compor.
     E como é que eu posso compor, Judit, se, de manhã até a tarde, tenho de ficar cavando jardim, pintando janelas, construindo poço e me deixando insultar?
     Em Munique, você já não compunha. Ficava o dia inteiro sentado entre os livros, fazendo nada – essa é a verdade.
     A verdade não existe, disse eu: pelo menos é o que dizem os inúteis dos livros!
     Se seus livros dizem um absurdo desses, melhor não lê-los. É claro que existe a verdade da arte!
     Muito bem, respondi cansado, mas ela se esconde atrás de muitas máscaras, e ninguém sabe quais.
     Então, é seu dever atraí-la para fora. Com sua música.”


     “Não era desagradável estar sozinho de novo. Desaparecem os afazeres que surgem quando duas ou mais pessoas vivem juntas, silenciam os chamados em voz alta, o ruído de passos, as eternas perguntas e admoestações. Eu trabalhava, alimentava os animais, saía para passear. Quando alguém é obrigado a providenciar seus próprios passatempos, ocorre-lhe coisas que não vêm à tona em meio a um grupo de pessoas. Muitos preferem buscar companhia, outros suportam bem a vida de cônjuge, e outros, ainda, encontram prazer em sentar-se ao lado das demais pessoas em jogos de futebol ou apresentações teatrais. Há aqueles que acham perfeitamente natural exercer seu domínio sobre os outros. E há aqueles que precisam ajudar os outros o tempo todo. Somente poucos, porém, são capazes de ficar sozinhos de fato. E, sendo eles tão poucos, são alvos de suspeita.”

terça-feira, 24 de maio de 2016

Tudo que você não soube – Fernanda Young

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-00-0220-3
Opinião: ***
Páginas: 136 
 
     “Mas um livro é um livro. Precisa ser entendido como um todo, mas apreciado por partes.”


     “Pois bem, pai, esse é um exemplo do quanto esse empreendimento é complicado. Refiro-me a contar minha vida para você. Se o faço, é porque me é uma necessidade; não de expurgar ou de esclarecer algo em mim mesma; não, não é com o pensamento voltado à ilusão “cabeça” da autoanálise que me esmero nessas páginas; mas porque você esta morrendo e não me conhece. E eu faço questão de que vá para o inferno sabendo como foi paga sua passagem. Foi com isso que me tornei, por sua culpa, uma pessoa que se sente insuportavelmente sozinha o tempo todo. Posso me cercar por multidões, pulando carnaval, que morro de solidão ali no meio. Não há companhia, ou emoção coletiva, ou comoção nacional, que me livre de estar só. Festas acontecem ao meu redor, sem que eu nunca me estabeleça como integrante. Pelo contrário, odeio quietinha todas elas, as festas, porque não suporto qualquer manifestação de felicidade. Odeio férias, odeio os feriados, odeio mesas grandes em pizzarias. Detesto Natal, tenho raiva do verão, fujo de aniversários. Tudo isso, paizinho, eu devo a você.”


     “Com certeza eu não me permitiria o vexame de tentar provar nada para os meus filhos.”


     “Odeio sonhar por causa disso: nós vemos como estamos internamente. Não dá para disfarçar diante de um sonho. Através das mudanças dos delírios sem nexo, revelamos uma radiografia das nossas partes internas, implacável, em que cada mancha, mesmo após mil lavagens, pode ser detectada, gritante, no lençol que encobre as nossas verdades.”


     “A mais cruel das rejeições é a de mãe e pai.”


     “Um imbecil letrado é algo dantesco. Mil vezes os imbecis ignorantes, mil vezes os analfabetos.”


     “Todo segredo requer mentiras.”


     “– Eu acho que perdão precisa ser pronunciado: perdão – disse a mulher.
     – Não concordo, acho até meio ridículo esse negócio do perdão em voz alta. O gesto do perdão é maior do que um papo-cabeça. Um perdão num diálogo pode ser mais falso do que um perdão insinuado. Há, nessas conversas, uma grande dose de teatro. A dramaturgia do leito de morte, principalmente, de um pai distante, tende a ser cínica e mentirosa.
     – Eu te conheço e sei que você não gosta de conversas dessa ordem, que nós chamamos de debater relação.
     – Nada a ver.
     – Tudo a ver. Você evita conversas intensas, sempre evitou. Não creio que faça isto por frieza, mas por total constrangimento. Somos casados há anos e todas as nossas crises foram resolvidas no silêncio. Silêncio que pode até ser menos vexaminoso, mas nos deixa sempre à beira de um abismo. Que existe, mas que a gente contorna. Até que um dia tropeçamos nesta elegância do não-debate e caímos lá embaixo. Então eu pergunto: para que nos terá servido a intimidade? Para nada. Porque não fomos capazes de nos expor.
     – O teatro tem o seu valor.
     – Tem, os diálogos têm a sua verdade, mesmo que os termos desta psicanálise de revista feminina nos tornem, todos, personagens ridículos.
     O marido olhou para mim, como quem diz: “pirou”. Notei que seu rosto estava mais vermelho do que deveria estar. Pensei em pegar a minha bolsa e deixá-los ali, com suas misérias, indo resolver as minhas. Devo confessar que concordo com ela, mas sou como ele: acho um saco certas sentimentalidades. Nesses debates, estilo sincerão, o que mais me irrita é que todo mundo tem razão. Então, resolvi dizer isso:
     – Eu acho que todo mundo tem razão. Este é o ponto que torna a discussão infundada. Não a de vocês, todas. Acho até que nunca participei de uma conversa tão sensata quanto esta, mesmo porque me identifico com ambas as partes. O que comprova que nada disso faz sentido. Se eu conversasse com meu marido, ou melhor, ex-marido, nós dois estaríamos certos. Ele, em ir, eu, em odiá-lo por ir. É isto que me desanima.
     – E se nós dois tivéssemos conversado, todas as vezes que estivemos à beira de algum abismo, é bem provável que um de nós já tivesse empurrado o outro lá embaixo.
     – Discordo. Eu não sou uma maluca que quer ficar debatendo cada sensação conflitante. Mas nós passamos por coisas sérias, que se tornaram maiores, porque não foram excretadas da nossa mente. Não é, papai?
     – Eu não quero me meter nisso.
     – Não vai se meter em nada. Estou falando em teoria.
     – Em teoria, os homens têm vergonha desse troço de conversa. Entendo que às vezes elas são necessárias. Mas existem certas deficiências que o tempo traz para as relações, que palavras apenas pioram. Certos assuntos que sabemos, mas se não falarmos sobre, podemos fingir que ninguém percebeu.
     – Mas qual é a vantagem de fingir que não há o problema?
     – Quando ele é insolúvel, a vantagem é que você não terá que resolver algo que não tem como ser resolvido.
     – Tipo o quê?
     – Tipo o fim do amor. Para os mais jovens, o fim do amor pode ser resolvido com o término do casamento. Inclusive, acho isso uma grosseria... Isso que não entendo nesse assunto de abismo... Desculpa, filha, mas abismo é viver. Não estamos à beira dele, estamos nele. E todo mundo age como se fosse um herói por contornar crises, por meio do debate, ou não. Todo mundo vai fazer análise, justamente para não olhar para a pessoa ao lado e dizer: eu tenho vontade de vomitar quando escuto os teus passos. E isso não se diz numa conversa. Você não pode virar para a mãe de seus filhos e falar: “Olha, eu não te odeio, te desejo tudo de melhor, mas eu não te amo mais”, sem que isso venha cheio de acusações. Quando, no fundo, no fundo, amor não dura. E nem venham me falar que o que não dura é paixão. A ideia do amor esta lá, faz parte de nossa cultura, essa tal transformação do amor. Podemos dizer: eu não te amo como te amei, mas esse amor se transformou, e eu amo ver televisão com você, eu amo saber que, se eu tiver um treco e ficar todo cagado, você me limpará. Isso é que é indiscutível. O amor não se transforma, ele se esgota, e a gente vai levando, por vários motivos. E, saibam, muitos desses motivos não são nada nobres.”


     “O que leva uma mãe a foder com a vida da filha? Inveja, será? É uma possibilidade. Mas que tipo de mãe sentiria inveja da própria filha? Que monstro seria esse? Respondo: qualquer mãe. Todas elas. Todas as mães sentem um pouco de inveja das suas filhas. É horrível dizer isso? É. Mas é melhor do que ser cínica.
     Tente imaginar, pai, o susto que é ser uma garota. Na rua, somos cantadas, em casa, somos reprimidas. Querem-nos belas, mas nos agridem se tentamos. Somos violentadas sob a capa do afeto. Parece discurso feminista, eu sei. Mas não há como evitar: ser menina é um problema. Mais um. Principalmente, para as meninas que nascem aqui no Brasil, uma país onde a mulher, além da obrigação de ser bonita, tem a obrigação de ser a dona da alegria. Aqui, mulher tem que fazer comida e fazer charme. Tem que ter coragem e bunda. Tem que saber sambar e saber o seu lugar. Uma barbárie. Aposto que você nunca tinha pensado sobre isso, tinha? Nenhum homem pensa. Eu penso. Sobre como nos querem festivas e subjugadas. Efusivas e caladas. Dadas e reservadas. O Brasil é macho, muito macho. É o pau-brasil, o bumba-meu-boi, o saci-pererê, o berimbau, o futebol e o caralho a quatro. E as meninas brasileiras são criadas para seguirem em frente sem perceber o quanto são ridicularizadas. Aqui é pior que na China, na Índia, países onde as mulheres são oficialmente inferiorizadas. Aqui, se disfarça. Somos enganadas, levadas a crer que ser menina é isso mesmo: tomar na bunda sorrindo. Metáfora forte demais? Não, nem é metáfora.
     E eu não tenho inveja da minha filha? Tenho! E eu tenho a chance de fazer uma diferença positiva, dentro do destino ingrato que a aguarda, ao admitir meus sentimentos mesquinhos. Estou com quase 40 e ela é adolescente – é óbvio que eu sinto inveja. E assumo que isto afeta a minha relação com ela. Acho importante que minha filha saiba disso. Ela vai logo ficar sabendo que o tempo, para uma mulher, é uma merda. Os homens envelhecem e ficam mais maduros, as mulheres envelhecem e ficam desesperadas. Temos essa fraqueza, e uma mãe deve ensinar a filha a lidar com isso. Hoje, enquanto ela floresce, eu murcho. E ela tem a sorte de eu pertencer a uma geração mais esclarecida, então posso dar tudo aquilo que não recebi. Sei reconhecer e elogiar suas habilidades, pois não fui reconhecida nem elogiada. Tenho plena consciência de que é necessário cumprir aquilo que prometemos – coisa recente entre as famílias brasileiras. Aprendi com a vida e sei que se deve ensinar o que se aprende, não o que nos ensinam. Sei que pintar o cabelo acaba com o brilho e que devemos adiar esse recurso ao máximo. Sei que não é bom raspar as pernas muito cedo, porque depois você vira um arame farpado ambulante. Sei que começar a fumar é um vacilo, pois se trata do vício mais difícil de se largar. Sei que, enquanto somos jovens, temos mais facilidade para aprender línguas. Sei que não vale a pena contar com homem nenhum em momento nenhum. Mas que ela pode contar comigo, mesmo sabendo que eu tenho inveja dela. Como não cobiçar a vida de uma menina que terá tudo o que eu não tive? A inveja talvez seja, ao lado do amor que sinto, um dos poucos sentimentos não-destrutivos em mim. Já que não a alimento, mas a reconheço e a torno útil. Não aguento essa hipocrisia da negação sistemática da inveja. Por que as pessoas são assim? Por que não admitem que mentem, que fingem e às vezes morrem de raiva da felicidade alheia? Eu fujo de gente que afirma não se irritar com nada. São, sem dúvida nenhuma, os mais perigosos. Porque não pensam naquilo que sentem e, sem pensar, agem. São como crianças, acreditam que um pensamento errado já é algo criminoso, então abafam suas mentes numa vaga letargia disfarçada de cuca fresca. Dizem-se calmos. Na verdade, estão atrapalhando o mundo e a natureza com seus comportamentos antinaturais. Não existe o bem-estar completo, e isto definiu o ser humano. Gente que não se incomoda com nada é o atraso da humanidade. Assim como gente que diz não sentir ciúmes é o viés do amor. Prefiro arder. Prefiro sentir a ser. Sinto inveja, mas não sou invejosa. Sei que as sensações antecedem as ações, e é a ação que vale. Sendo essa consciência a única forma de nos frear antes do abuso. É o desejo de dar uma surra num filho que impede a surra. Sente-se vontade de estrangular um bebê que chora a noite toda, e imaginar essa hipótese é que nos faz ver que um filho é a coisa mais importante da vida. Eu morro de inveja, quando vejo minha filha sair linda, para encontrar os amigos; mas não infernizarei a vida dela, como a minha mãe fez comigo. Irei, isto sim, melhorar, entendendo o que sinto, porque eu não sou o que sinto.”

domingo, 15 de maio de 2016

Guerra Civil: uma história do universo Marvel – Stuart Moore

Editora: Novo Século
ISBN: 978-85-4280-412-6
Tradução: Michele Gerhardt MacCulloch
Opinião: ***
Páginas: 398

     “Agora, porém, Tony começava a notar que alguma outra coisa o incomodava. Thor não havia sido apenas seu amigo; o deus do trovão era o eixo, o centro dos Vingadores. Tony e Capitão eram homens cheios de força de vontade, cada um com seus pontos fortes e fracos: o Capitão era guiado pelo coração e pelo instinto, Tony pela fé no poder da indústria e da tecnologia. Muitas vezes depois que a equipe foi fundada, eles quase foram aos tapas por causa de alguma estratégia ou sacrifício. E todas as vezes, Thor levantou aquela voz retumbante que não deixava espaço para discussões. Ele os lembrava de suas responsabilidades ou ria da tolice deles, e sua risada gigantesca sempre os unia. Ou, então, ele apenas se colocava atrás dos dois e dava tapinhas em suas costas, com tanta força que quase fundia a armadura de Tony em sua pele. (...)
     Tony sofrera por Thor no último mês. A dor e a frustração que sentiam foi motivo de discussão entre Os Vingadores: após dezenas, centenas de batalhas juntos, o amigo e companheiro deles aparentemente morrera sozinho, em uma guerra disputada bem longe dali, em algum outro plano de existência totalmente diferente. Os Vingadores não apenas estavam impotentes para ajudar o amigo, como provavelmente não poderiam sequer ter percebido a batalha que tirou a vida dele.”


     “Aranha se debruçou sobre uma intricada máquina, uma treliça de vidro e metal. Ben franziu a testa.
     – Melhor não mexer nisso.
     – Foi mal. Reed não vai gostar?
     – Pior. Ele vai passar vinte minutos explicando o que ela faz.”


     “No momento em que Tony Stark subiu na tribuna, sentiu um frio na barriga. Olhou em volta, confuso. Já havia participado de dezenas de coletivas ali, na sala de imprensa principal da Stark Enterprises.
     De repente, ele se deu conta: É isso. A última vez que a sala de imprensa ficou tão cheia assim foi há dois anos, quando – impulsivamente e sem planejar – revelou ao mundo o segredo da sua vida: que ele era o Homem de Ferro.
     Tony limpou a garganta e se aproximou do microfone.
     – Já estivemos aqui antes?
     Uma onda de risos encheu a sala. Tony
     – Geralmente, quando estou de pé na frente de um grupo de pessoas, começo com estas palavras: Meu nome é Tony. E eu sou alcoólatra.
     A multidão riu novamente, um pouco nervosa. Pelo menos, não são hostis.
     – Isso aqui é diferente, claro. Mas estranhamente similar. – Ele fez uma pausa de efeito, tomando um gole de sua água com gás. – Uma das primeiras coisas que se aprende durante a recuperação é que você tem de jogar limpo com as pessoas, em todos os níveis. Comecei esse processo dois anos atrás. A minha identidade como Homem de Ferro é de conhecimento público, assim como meus impostos, minha história familiar e o histórico detalhado de meus dolorosos fracassos pessoais. A minha vida não é apenas um livro aberto; é praticamente um texto eletrônico com código aberto com licença da Creative Commons – mais risos.
     – Mas existe uma coisa que as pessoas que não têm o meu… problema… costumam não entender. Um alcoólatra não busca ajuda quando as coisas estão indo bem para ele. Alguns de nós precisam chegar ao fundo do poço. Outros chegam a um ponto em que o estilo de vida, os efeitos cumulativos sobre si mesmos e sobre outras pessoas ficam pesados demais para suportar. Ainda assim, alguns experimentam um momento de clareza. Um breve e vívido lampejo de seu futuro, do destino terrível que espera por ele se não mudar.
     – Senhoras e senhores, Stamford (quando o combate dos Novos Guerreiros contra um grupo de vilões resultou em mais de novecentas mortes de civis) o acidente que foi o meu momento de clareza. Tem muita coisa na minha vida das quais me envergonho, mas tenho muito orgulho da minha carreira como super-herói. Salvei milhares de vidas, coloquei centenas de criminosos perigosos atrás das grades e impedi dezenas de catástrofes antes que elas sequer pudessem acontecer. Fundei os Vingadores, a primeira equipe de super-heróis do mundo, cuja longa história de bons trabalhos fala por si.
     – Não, não, não aplaudam. Não quero o aplauso de vocês hoje; não é por isso que estou aqui. Porque outra lição que aprendi é que decidir não tomar o primeiro gole não é o fim da jornada de um alcoólatra em direção à luz. É apenas o primeiro passo.
     – E para mim, para a comunidade super-humana, da qual me orgulho fazer parte, a minha decisão de ir a público, de revelar os detalhes da minha vida para vocês, foi o Primeiro Passo. Hoje é o próximo passo.
     Ele fez uma pausa, a garganta seca. Seu olhar correu pela sala, analisando o mar de repórteres, escrevendo e digitando furiosamente em seus dispositivos eletrônicos.
     – Super-humanos, meta-humanos, heróis, vilões. Como quer que vocês os chame, eles se proliferaram enormemente na última década. Alguns nasceram com habilidades físicas e mentais superiores; outros recebem seus poderes por meio de acidentes. Outros, como eu, desenvolveram meios tecnológicos de melhorar seus dons naturais. Outros, sem nenhum poder de verdade, fazem justiça com as próprias mãos, vestindo fantasias e saindo nas ruas. E outros ainda, são seres alienígenas, total ou parcialmente humanos.
     – Vivemos em um mundo assustador e incerto. Guerras estouram no Oriente Médio e em outros lugares; o medo do terrorismo ainda não acabou. Em todo o país, famílias enfrentam a ameaça de ruína financeira, de não realizar o Sonho Americano que sempre foi a promessa desta nação. O Sonho que tem sido tão bom pra mim, pessoalmente.
     – Então, estou aqui hoje, um homem, para prometer a vocês: eu farei o que puder para tornar o mundo um pouco menos assustador. Não posso resolver a economia mundial, e não posso fazer muito a respeito de ataques nucleares ou biológicos. Mas eu posso, e vou, resolver o problema das armas super-humanas de destruição em massa.
     – De hoje em diante, qualquer homem, mulher ou alienígena que for para as ruas ou para os céus tentar usar seus dons naturais ou artificiais em um cenário público, deve seguir os seguintes passos. Primeiro, deve se registrar on-line no Departamento de Segurança Nacional, um processo rápido e simples. Entre as informações requeridas estão: o verdadeiro nome e endereço do solicitante, informações para contato 24 horas, nível de experiência e extensão das habilidades super-humanas, se tiver.
     – Esse formulário será rapidamente avaliado por mim e pelo Secretário de Defesa – o secretário assentiu. – Dependendo da nossa avaliação, várias coisas podem acontecer depois. A pessoa pode ser aprovada para atividade meta-humana sob os termos da Lei de Registro de Super-humanos. Ela receberá um contrato severo, informando sobre as diretrizes de comportamento apropriado, e um distintivo emitido pela S.H.I.E.L.D. Essa pessoa também receberá um salário de acordo com sua experiência e habilidade, além de plano de saúde, tudo isso supervisionado pelo governo federal e pela S.H.I.E.L.D.
     Tony fez uma pausa para respirar.
     – Se o solicitante não tiver muita experiência, ele receberá uma licença condicional, que o permitirá que exercer suas habilidades depois, e só depois, de ter concluído um curso intensivo de oito semanas em um dos vários centros de treinamento que serão estabelecidos pela S.H.I.E.L.D. Esses centros são ultrassecretos e ficam longe de qualquer grande centro urbano, assim não haverá nenhum perigo para a população civil durante o processo de treinamento. Uma vez que o solicitante tiver concluído o curso, ele será avaliado por um conselho formado por super-heróis experientes. Se for considerado responsável e competente no uso de seus poderes, uma licença total será emitida. Caso contrário, ele terá a opção de retomar o curso de treinamento ou se aposentar.
     – É claro que haverá aqueles solicitantes que mostrarão ser um perigo real ou potencial para o público, seja por imprudência, falta de moral ou pela natureza incontrolável de seu poder. A eles será negada a oportunidade de praticar suas habilidades. Acreditamos que isso seja justo. Um homem pode possuir o conhecimento de como construir uma bomba atômica, mas isso não lhe dá o direito de montar uma no meio da Times Square – Tony fez uma pausa. – Acreditem em mim, descobri isso aos nove anos.
     O grupo riu. Está dando certo, pensou Tony. Eles estão realmente me apoiando.
     – Vou responder a algumas perguntas agora, depois tenho uma surpresa para vocês. Mas antes que façam qualquer pergunta, quero lembrar-lhes que nada disso é decisão minha. É a lei; foi apropriadamente votada pelo Congresso e assinada pelo  presidente. Ele me pediu, pessoalmente, para supervisionar a implementação da Lei de Registro de Super-humanos, e eu aceitei. É meu privilégio e dever em vários aspectos.”


     “Capitão tossiu, depois fez uma careta. Tudo doía: seu rosto, seus braços, suas pernas. Tony realmente lhe maltratara.
     Falcão terminou de colocar a atadura e deu um passo atrás.
     – Você parece uma múmia que acabou de fugir da tumba – disse o homem alado. – Mas ainda lhe sobraram alguns dentes.
     – E tenho a intenção de usá-los – respondeu o Capitão.”


     Outro raio. Reed virou-se para olhar para Thor, majestoso e cruel no centro da carnificina.
     Chuva pingava de seus cabelos louros, mal o tocando.
     – Thor – chamou Reed. – Pode parar. O esquadrão de limpeza da S.H.I.E.L.D. assume daqui.
     – Peter – disse Tony. – Os prisioneiros ficam por sua conta. Precisamos fazer uma lista deles antes…
     – CUIDADO!
     Tony levantou a cabeça – tarde demais. Golias agigantava-se sobre eles, com pelo menos seis metros de altura – Sue nunca o tinha visto tão alto. O grito de dor de Golias enchia o ar; ele não tinha nenhuma proteção contra a frequência das ondas. Mas segurava sobre a cabeça um enorme tonel químico, pingando um líquido verde.
     Com um uivo de agonia, ele jogou sua carga em cima do Homem de Ferro.
     Adaga – olhos arregalados em agonia – disparou uma saraivada de raios. O tonel atingiu o Homem de Ferro; os raios atingiram o tonel; e o tonel explodiu formando uma enorme bola de fogo.
     Mulher-Hulk, foi atingida pela bola de fogo, gritou e correu, sua roupa estava em chamas. Viúva Negra se apressou para ajudá-la.
     As chamas estavam altas, chamuscando um helicóptero da S.H.I.E.L.D. que pairava sobre a fábrica. A aeronave se inclinou, girou no céu – e atingiu Miss Marvel, que estava em pleno voo. Ela berrou, assustada, e caiu no solo.
     Meu Deus, pensou Sue. Será que eles mataram Tony?
     Lentamente, a bola de fogo diminuiu. E, no seu centro, agachado e apoiado em um joelho, apareceu a silhueta do Homem de Ferro.
     – Estou bem – a voz de Tony soou no transmissor de Sue. – Só um pouco queimado.
     E então, ela notou: os gemidos em sua orelha cessaram.
     A bola de fogo não matou Tony, mas desativou a frequência de ondas. A Resistência estava se levantando: Gavião Arqueiro, Falcão, Tigresa, Adaga e os Jovens Vingadores.
     Capitão América levantou um braço e gritou:
     Atacar!
     Em seguida, ele tombou pra frente e caiu no chão.
     Mais uma vez, o mundo explodiu em trajes correndo e golpes poderosos. Homem-Aranha encarou Célere, seus tentáculos se esforçando para pegar o adolescente a toda velocidade. Falcão alçou voo, bombardeando o Coisa em um mergulho. Gavião Arqueiro tentava acertar uma flecha na Viúva Negra; ela contra -atacava lançando seus ferrões no herói, que se esquivava.
     Miss Marvel levantou devagar do chão da fábrica, recuou ao tentar se apoiar no braço ferido. Seus olhos estavam vermelhos de fúria.
     Capitão América estava deitado imóvel, de cara com o concreto. Falcão gritou para Gavião Arqueiro:
     – Gavião! Pegue o Capitão. Temos que tirá-lo daqui!
     Sue virou-se para Reed e implorou:
     – Reed, temos que acabar com isso!
     Sue teve a impressão de ver uma faísca de medo nos olhos dele.
     – Eu já desativei o Thor.
     – Como assim, desativou?
     Tony Stark veio andando trôpego, sua armadura estalando. A explosão o havia danificado.
     – Reagrupar – ordenou Tony. – Temos de…
     Mas Golias virou o seu enorme corpo na direção dos Vingadores reunidos. Abaixou-se, agarrou o chão embaixo de seus pés e puxou. Eles tombaram e voaram. Rajadas de poder por todo lado; Miss Marvel se debatia no ar. Homem-Aranha lançou uma teia que agarrou-se a uma viga rachada.
     Thor virou-se para assistir ao caos. Raios brilhavam.
     Falcão mergulhou do céu, carregando Gavião Arqueiro, que apontou para o corpo imóvel do Capitão.
     Lentamente, o deus do trovão pegou seu martelo.
     Golias virou-se para ele.
     – Prepare-se para o retorno mais breve da história, Thor.
     Não, pensou Sue. Oh, não
     O martelo de Thor brilhou, com mais intensidade que nunca. Com um estrondo ensurdecedor, raios emanaram dele, avançando pelo ar…
     … e atingiu diretamente o peito de Golias.
     Havia sangue, raios e chuva, e o corpo de seis metros de altura de Golias caiu para trás no muro dos fundos da fábrica. Aterrissou quebrando plástico, metal e concreto.
     Ainda invisível, Sue rastejou até ele. Não se importava com o que Reed pensava. Não se importava se a S.H.I.E.L.D. a pegasse. Não se importava se Thor lançasse mais raios, fazendo dela outra vítima.
     Tocou a mão gelada de um metro de comprimento de Golias, viu fumaça saindo do buraco onde antes ficava o coração dele. Ela soube: Golias estava morto.
     A chuva continuava caindo com força. Mas as batalhas haviam cessado. Miss Marvel segurava o próprio braço, estremecendo de dor. Mulher-Hulk estava caída, as queimaduras cobriam metade de seu corpo. Homem de Ferro ainda estava ajoelhado, sem equilíbrio, tentando reiniciar seus sistemas criticamente danificados.
     A S.H.I.E.L.D. sobrevoava, assistindo com frios olhos mecânicos.
     Todos eles permaneciam imóveis, fitando o corpo de seis metros de um herói que ousou desafiar a Lei de Registro de Super-humanos.
     Sue não sentia nada. Só frio. Só conseguia pensar em uma coisa, a única que vinha à sua mente, a frase que Tony Stark pronunciara em sua famosa coletiva de imprensa: “Stamford foi meu momento de clareza”.
     Este, ela percebeu, é o meu.”


     “Capitão escolheu as palavras com cuidado.
     – E você está disposto a deixá-los impunes por isso?
     Adaga fez uma careta.
     – Eles podem fazer o que quiser agora. Thor está do lado deles.
     – Aquele não era Thor – afirmou Capitão. – Era algum Frankenstein que eles construíram para o exército de super-heróis deles. Você não conhecia Thor, garota. Não pense… nem por um momento… que ele teria assassinado um homem bom como Bill Foster.”

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Cidade de Deus (Livros VI-VIII) – Santo Agostinho

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian
ISBN: 978-97-2310-543-8
Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições: J. Dias Pereira
Opinião: ***
Páginas: 270


     “E fácil crer que se deu uma resposta quando na realidade o que se quis foi não estar calado. Que é que há de mais palavroso do que a vacuidade? E lá por que ela pode, se quiser, gritar mais alto do que a verdade — nem por isso terá mais poder que a verdade.”


     “A realidade é que nunca seremos capazes de lhe agradecer a dádiva de sermos, de vivermos, de contemplarmos o Céu e a Terra, de possuirmos inteligência e razão para procurarmos Aquele que todos estes bens criou. E todavia, acabrunhados pelo peso dos nossos pecados, desviados da contemplação da sua luz, cegos pelo amor das trevas, ou seja, da iniquidade, não fomos completamente abandonados — mas enviou-nos o seu Verbo, o seu único Filho, que, na sua carne de nós assumida, nasceu e sofreu para que soubéssemos quanto Deus amou o homem e ficássemos purificados de todos os pecados por esse sacrifício sem igual e, com a caridade do Espírito Santo, difundida em nossos corações, chegássemos ao eterno descanso e inefável doçura da sua contemplação. Que corações, que línguas poderão ter a pretensão de lhe prestarem condignas ações de graças?”


     “Ao tratarmos da chamada teologia natural, temos que lidar, não com quaisquer homens (pois já não se trata da teologia fabulosa ou civil, isto é, a do teatro e a da cidade, das quais uma exalta ostensivamente os crimes dos deuses e a outra põe a descoberto os seus mais criminosos desejos, desejos, portanto, mais de demônios maléficos do que de deuses), mas é com filósofos que devemos discutir, com aqueles cujo nome proclama o amor da sabedoria.
     Ora se a Sabedoria é Deus por quem tudo foi feito, como o demonstraram a autoridade divina e a verdade, verdadeiro filósofo é o que ama a Deus. Mas porque a própria coisa assim chamada não existe em todos os que se gabam deste nome (realmente nem todo aquele que se diz filósofo é por isso amigo da verdadeira sabedoria).”


     “Cedam estas duas teologias — a fabulosa e a civil — aos filósofos platônicos que reconhecem o verdadeiro Deus como autor das coisas, fonte luminosa da verdade, dispensador da felicidade eterna. Cedam ainda a tão grandes pensadores que chegaram a conhecer um Deus tão grande, esses outros filósofos cujo pensamento, escravo do corpo, não admite para a natureza senão origens corpóreas: a água, segundo Tales; o ar, segundo Anaxímenes; o fogo, segundo os estoicos; segundo Epicuro, os átomos, isto é, corpúsculos, pequeníssimos, indivisíveis e imperceptíveis; e tantos outros que não vale a pena citar, para quem os corpos, simples ou compostos, inanimados ou vivos mas, todavia, corpos, são causas e princípios das coisas. Realmente, alguns deles, tais como os epicuristas, acreditaram que as coisas vivas podiam ser produzidas por coisas não vivas; outros pensaram que é do vivo que provêm os vivos e os não vivos, mas que todo o corpo provém de outro corpo. Quanto aos estoicos, consideraram o fogo, um dos quatro elementos que constituem o mundo visível, como dotado de vida e de sabedoria e consideraram-no como tendo fabricado o Mundo, de maneira que, segundo eles, era realmente um deus.
     Estes e outros que tais não conseguiram elevar o seu pensamento acima dos fantasmas que os seus corações, submetidos aos sentidos carnais, imaginaram. Realmente, tinham dentro de si o que não viam e imaginavam que viam fora de si o que não viam, embora, na realidade, não o vissem, mas apenas o imaginassem. E isto, realmente, à vista do pensamento, já não é corpo: é antes a imagem do corpo. E a faculdade que vê na alma a imagem dum corpo não é nem esse corpo nem a imagem desse corpo: e ela que vê e julga se essa imagem é bela ou disforme, é, sem a menor dúvida, melhor do que a imagem julgada. Esta faculdade é a inteligência do homem, a natureza da alma racional que, sem dúvida, não é um corpo, pois que esta imagem do corpo quando é percebida e apreciada no ato do pensamento, já não é ela mesma um corpo. Ela não é, portanto, nem terra, nem água, nem ar, nem fogo; não é nenhum destes quatro corpos chamados os quatro elementos de que vemos ser composto o mundo corpóreo. Ora se a nossa alma não é um corpo, como é que será um corpo Deus criador da alma?
     Que estes filósofos cedam, portanto, aos platônicos. Cedam-lhes também os que se envergonharam de dizer que Deus é um corpo, mas nem por isso deixam de pretender que as nossas almas são de natureza idêntica à d’Ele. Não se sentem chocados com a mobilidade tão grande da alma, que não se poderá atribuir, sem incorrer em impiedade, à natureza de Deus. Dirão: é pelo corpo que a natureza da alma esta sujeita a mudanças; por si mesma ela é imutável. Poderiam dizer também: é pelo corpo que a alma é ferida porque esta por si mesma é invulnerável. Na verdade, o que não esta sujeito a mudança, nada o pode mudar; por isso é que o que pode mudar por intermédio do corpo, alguma coisa o pode mudar e, então, já não pode em rigor chamar-se imutável.”


Pensamento de Platão acerca da chamada filosofia física.
     Estes filósofos que, pela sua fama e glória, vemos colocados merecidamente acima dos demais, compreenderam que Deus não é corpo e por isso é que, na busca de Deus, transcenderam todos os corpos. Compreenderam que em Deus Soberano nada é mutável, e por isso é que, na procura de Deus Soberano, transcenderam toda a alma e todo o espírito mutável. Compreenderam, além disso, que em todo o ser que muda, toda a forma que o faz ser o que é, qualquer que seja a sua natureza e os seus modos, não pode ela própria existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. E daí que, quer seja o corpo do Mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus elementos escalonados do Céu à Terra e todos os corpos que ele encerra;
     quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência, como nos anjos,
     não pode manter o seu ser senão d’Aquele que simplesmente é. Para Ele, efetivamente, ser não é uma coisa e viver outra, como se pudesse ser sem viver; para Ele viver não é uma coisa e compreender outra, como se pudesse viver sem inteligência; para Ele compreender não é uma coisa e ser feliz outra, como se pudesse ter inteligência sem a beatitude. Mas para Ele viver, compreender, ser feliz, tudo isso para Ele é ser.
     Devido a esta imutabilidade e a esta simplicidade, os platônicos compreenderam que Deus fez todos os seres e por nenhum pôde ser feito. Realmente observaram que tudo o que existe é corpo ou vida, que a vida é coisa superior ao corpo, que a forma do corpo é sensível e a da vida é inteligível. Puseram, portanto, a forma inteligível acima da forma sensível. Ora nós chamamos sensível ao que pode ser percebido pela vista e pelo tato do corpo; inteligível ao que pode ser captado pelo olhar do espírito. Não há efetivamente beleza corpórea quer na estrutura do corpo, nos seus traços por exemplo, quer num movimento, como é o canto, que não tenha o espírito por juiz. Mas este espírito não poderia ser juiz, se nele não houvesse essa beleza mais perfeita, sem o volume da massa, sem o ruído da voz, sem a extensão do lugar e do tempo. Quanto ao próprio espírito, se, também ele, não fosse mutável, um não seria melhor do que outro ao ajuizar acerca da beleza sensível: nem o mais vivaz, o mais esperto, o mais exercitado ajuizaria melhor do que o mais lento, o menos esperto, o menos exercitado — e até o próprio espírito, embora uno, ao evoluir ajuíza melhor depois do que antes de se desenvolver. Não há dúvida de que é mutável o que é capaz de mais e de menos. Daí facilmente concluírem homens engenhosos, doutos e experientes nestas matérias, que a primeira forma não se encontra nos seres em que ela se evidencia mutável. A seus olhos o corpo e a alma aparecem com mais ou menos forma, de maneira que se lhes chegasse a faltar toda a forma, deixariam totalmente de ser. Viram, pois, que existe um ser no qual reside a primeira forma, imutável e, consequentemente, incomparável; julgaram muito justamente que é aí que se encontra o princípio das coisas, o qual não poderá ter sido feito e pelo qual tudo terá sido feito.
     Assim, é o próprio Deus que lhes desvenda o que de Deus pode ser conhecido, quando a inteligência deles perscruta, através das Escrituras, as suas perfeições invisí­veis, o seu eterno poder e a sua divindade (Rom. I, 19-20) — Ele por quem todos os seres, mesmo os visíveis e temporais, foram criados. Fica exposto assim o que se refere à parte chamada física, isto é, a natural.


     “Segundo Platão, o bem supremo consiste em viver conforme a virtude — o que só pode ser alcançado por quem tem o conhecimento de Deus e procura imitá-lo: não há outra causa que possa torná-lo feliz. Também não hesita em dizer que filosofar é amar a Deus, cuja natureza é incorpórea. Donde se segue que o desejoso de sabedoria (que o mesmo é que dizer: o filósofo) só se torna feliz quando começa a gozar de Deus. Certamente que se não é feliz pelo simples fato de que se goza do que se ama, (muitos de fato são infelizes por amarem o que não deviam amar e mais infelizes ainda por dele gozarem). Todavia ninguém é feliz se não goza do que ama. Mesmo aqueles que amam o que não deve ser amado não se julgam felizes por amarem, mas por gozarem. Portanto, quem goza daquele que ama e ama o verdadeiro e supremo bem — quem senão o mais desgraçado negará que esse é feliz? A esse verdadeiro e supremo bem dá Platão o nome de Deus. Por isso é que diz que filósofo é o que ama a Deus; e porque a filosofia tende para a vida feliz, é gozando de Deus que quem o ama é feliz.”



     “Realmente, a respeito do único e verdadeiro Deus construtor do mundo, muitas coisas Hermes Trismegisto diz que correspondem à verdade; e não compreendo como é que tal cegueira do coração o leva a afirmar que os homens estão sujeitos aos deuses que (é ele que o confessa) pelos homens foram feitos, e a deplorar a supressão futura desta sujeição — como se houvesse alguma coisa mais deplorável para o homem do que ser dominado pelas suas próprias ficções. Porque a verdade é que é mais fácil a um homem deixar de ser homem, adorando como deuses as obras das suas mãos, do que às suas obras tornarem-se deuses pelo culto que um homem lhes presta. Realmente, a um homem de tão elevada dignidade, se não é inteligente é mais fácil descer à categoria dos brutos do que a obra do homem ser preferida à obra de Deus feita à sua semelhança, isto é, ao próprio homem. É precisamente por isso que o homem se afasta daquele que o fez quando acima dele coloca o que ele próprio fez.”

A Cidade de Deus (Livro V) – Santo Agostinho

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian
ISBN: 978-97-2310-543-8
Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições: J. Dias Pereira
Opinião: ***
Páginas: 90

A presciência de Deus e a livre vontade do homem, contra a definição de Cícero.
     Cícero esforça-se por refutar (a ideia de destino), mas julga que nada pode contra eles a não ser que suprima a adivinhação. Para o conseguir, chega a negar que haja conhecimento do futuro e sustenta com todas as suas forças que nenhuma previsão dos fatos pode haver, quer nos homens quer em Deus. Desta maneira, não só nega a presciência de Deus, mas também procura destruir toda a profecia, mesmo que ela seja mais clara do que a luz, com vãos argumentos e opondo a si mesmo certos oráculos que facilmente se podem refutar — mas nem sequer isto mesmo consegue.
     Mas, ao refutar as conjecturas dos astrólogos, a sua retórica triunfa porque elas na verdade são de tal jaez que a si próprias se destroem e se refutam. Todavia, são muito mais desculpáveis os que admitem a fatalidade astral do que ele, que suprime a presciência do futuro. Efetivamente, é extremada insânia admitir que Deus existe e negar-lhe o conhecimento do futuro.
     Quando ele próprio se deu conta disso escreveu um texto sobre a ideia que a Escritura condensa na frase:
     Disse o louco no seu coração: Não há Deus. (Salmo XIII, 1),
mas sem o fazer em seu próprio nome. Viu quanto isso seria revoltante e molesto e encarregou Cota, nos livros De natura deorum (Acerca da natureza dos deuses), de sustentar a discussão acerca desta matéria contra os estoicos; mas antes quis pôr-se do lado de Lucílio Balbo, a quem tinha confiado a defesa das opiniões dos estoicos, do que do lado de Cota que nega que haja qualquer natureza divina. Mas nos livros De divinatione (Acerca da adivinhação), é em seu próprio nome que abertamente ataca a presciência do futuro. Parece que Cícero fez tudo isto para que, admitindo-se o destino, se não negue a vontade livre. Pensa ele que, uma vez admitida a ciência do futuro, o destino se toma uma consequência necessária e inegável. Mas aonde quer que levem tão tortuosas controvérsias e as discussões dos filósofos, o que nós confessamos é que há um Deus Supremo e verdadeiro, tal como confessamos a sua vontade, o seu poder supremo e a sua presciência; nem temos medo de poder fazer sem vontade o que voluntariamente fazemos, lá porque prevê o que havemos de fazer Aquele cuja presciência se não pode enganar. Foi este receio que levou Cícero a impugnar a presciência e os estoicos a dizerem que nem tudo acontece necessariamente, embora sustentem que tudo acontece fatalmente.
     Que é, pois, que Cícero receou na presciência do futuro, para procurar abalá-la com uma argumentação detestável? Isto: se os acontecimentos futuros são todos previstos, cumprir-se-ão pela mesma ordem por que foram previstos. Se vierem por essa ordem, então a ordem das coisas esta determinada pela presciência de Deus; se a ordem dos acontecimentos esta determinada, determinada esta também a ordem das causas, pois nada pode acontecer que não seja precedido de uma causa eficiente. Se, portanto, a ordem das coisas, pela qual acontece tudo o que acontece, esta determinada, fatalmente acontece, diz ele, tudo o que acontece. Mas, se assim é, nada esta no nosso poder, e nenhum arbítrio da vontade existe. Mas, se tal admitirmos, acrescenta ele, toda a vida humana se subverte, em vão se proferem leis, em vão recorremos às censuras ou aos louvores, às críticas ou às exortações, nem haverá mais justiça como prêmio para os bons, nem castigos instituídos para os maus.
     É pois para evitar à humanidade estas consequências indignas, absurdas e perniciosas que ele nega a presciência do futuro. Encerra a alma religiosa no angustioso dilema de escolher de duas uma — ou a nossa vontade tem algum poder, ou existe uma presciência do futuro. Porque, assim pensa, uma e outra não podem coexistir: se admitirmos uma, negamos a outra; se escolhermos a presciência do futuro, suprimimos o arbítrio da vontade; se escolhermos o arbítrio da vontade, suprimimos a presciência do futuro. E assim ele, grande e douto varão, tantas vezes e com tal mestria defensor da vida humana, das duas coisas escolheu o livre arbítrio da vontade; mas, para o consolidar, negou a presciência do futuro e assim, querendo fazer os homens livres, fê-los sacrílegos.
     Mas a alma religiosa escolhe uma e outra, confessa uma e outra e fundamenta uma e outra na fé religiosa. Como? Pergunta. Porque, se há uma presciência do futuro, seguem-se todos aqueles acontecimentos que são conexos até se chegar ao ponto em que na nossa vontade já nada há. Mas, se, pelo contrário, alguma coisa depende da nossa vontade, os mesmos argumentos virados do avesso, nos levam a demonstrar que não há presciência do futuro. Eis como se viram do avesso todas essas questões: se há um arbítrio da vontade — nem tudo acontece fatalmente; se nem tudo acontece fatalmente, a ordem das causas não esta determinada; se a ordem das causas não esta determinada, também não esta determinada na presciência de Deus a ordem dos acontecimentos, porque eles não se podem realizar sem causas que os precedam e os produzam; se a ordem dos acontecimentos não esta determinada pela presciência divina eles não acontecem todos como Deus previu que aconteceriam: e portanto em Deus, diz ele, não há presciência de todos os futuros.
     É contra estas audácias ímpias e sacrílegas que nós afirmamos, não só que Deus conhece todos os acontecimentos antes que eles se verifiquem, mas também que fazemos voluntariamente tudo o que sabemos e temos consciência de que o fazemos apenas porque o queremos.
     Não dizemos que tudo acontece fatalmente; dizemos antes que nada acontece fatalmente; porque a palavra fatal ou destino, no sentido que é costume dar-se-lhe, isto é, designando a posição dos astros no momento em que cada um é concebido ou nasce, demonstramos que nada vale, porque é uma expressão sem sentido. Mas a ordem das causas em que a vontade de Deus muito pode, nem a negamos nem a designamos com o nome de destino salvo, talvez, no sentido que se lhe dá ao derivar fatum (destino) de fari (falar). Não podemos, na verdade, negar o que foi escrito nas Sagradas Escrituras:
     Deus falou uma vez e eu ouvi duas coisas: o poder pertence a Deus e a ti, Senhor, a misericórdia, a ti que recompensas cada um conforme as suas obras. (Salmo LXI, 12-13)
     Estas palavras semel locutus est significam: ele proferiu uma “palavra imóvel” isto é, “irrevogável”, tal como conhece irrevogavelmente tudo o que virá a acontecer e tudo o que Ele mesmo terá a fazer.
     Com este sentido poderíamos fazer derivar fatum (destino) de fari (falar) se não fosse costume entender-se por esta palavra outra coisa para a qual não queremos que o coração dos homens se incline. Mas pelo fato de a ordem das causas estar determinada para Deus, não se conclui que nada depende do arbítrio da nossa vontade. É que as nossas próprias vontades pertencem à ordem causal, certa para Deus e contida na sua presciência. As vontades humanas são efetivamente as causas das ações humanas, e por conseguinte aquele que previu todas as causas das coisas não pôde ignorar, entre as causas, as nossas próprias vontades, pois que previu as causas das nossas ações.
     Mas mesmo o que Cícero concede — que nada acontece sem ser precedido de uma causa eficiente — é bastante para o refutar nesta questão. Para que lhe serve, efetivamente, afirmar que nada acontece sem causa, mas que nem toda a causa é fatal, pois que há causas fortuitas, causas naturais, causas voluntárias? Basta que reconheça que nada acontece senão em virtude de uma causa anterior. As causas que se chamam fortuitas, donde fortuna tirou o nome, não dizemos que não existem. Dizemos antes que estão escondidas. E atribuímo-las à vontade do verdadeiro Deus ou de qualquer outro espírito. E as próprias causas naturais de forma nenhuma as separamos da vontade d’Aquele que é o autor e o criador de toda a natureza. Até mesmo as causas voluntárias provêm ou de Deus ou dos anjos, ou dos homens ou de alguns animais, se é que se podem chamar vontades a esses movimentos das almas privadas de razão, que as levam a agir conforme a sua natureza quando sentem algum desejo ou aversão. Mas por vontade dos anjos entendo, quer a dos bons, a que chamamos anjos de Deus, quer a dos maus, a que chamamos anjos do Diabo ou ainda demônios. Da mesma forma a dos homens, quer dos bons quer dos maus.
     Daqui se colhe que não há causas eficientes de tudo o que acontece que não sejam voluntárias, isto é, procedentes dessa natureza que é sopro (spiritus) de vida. E que também se chama sopro (spiritus) ao ar ou ao vento. Mas este, porque é um corpo, não é sopro (spiritus) da vida. Porém o sopro (spiritus) de vida que tudo vivifica e é criador de todo o corpo e de todo o espírito (spiritus) criados, é o próprio espírito (spiritus) inteiramente incriado. Na sua vontade esta o poder supremo que ajuda as vontades boas dos espíritos criados, julga as vontades más e a todas ordena, dando poderes a umas e recusando-os a outras. De fato, assim como é o criador de todas as naturezas, assim é também o dispensador de todos os poderes, mas não de todos os quereres. Realmente, as vontades más não procedem d’Ele porque são contrárias à natureza, que, essa sim, provém d’Ele. Por isso os corpos estão submetidos às vontades — uns às nossas, isto é, de todos os seres viventes mortais e, aliás, mais os dos homens do que os dos animais; outros às dos anjos; mas todos estão submetidos principalmente à vontade de Deus, de quem dependem também todos os quereres, porque eles não têm outros poderes que não sejam os que Ele lhes concede.
     Também a causa das coisas, que faz mas não é feita, é Deus. Mas há as outras causas que fazem e são feitas: como são todos os espíritos criados, principalmente os racionais. Mas as causas corporais que são mais atuadas do que atuantes, nem sequer entre as causas eficientes devem ser enumeradas, porque o que elas podem realizar é apenas o que as vontades dos espíritos produzem, delas se servindo.
     Como é, então, que a ordem das causas que esta determinada (certa) na presciência de Deus faz com que nada dependa da nossa vontade quando nessa mesma ordem de causas as nossas vontades ocupam lugar importante? Pois lá se avenha Cícero com aqueles que afirmam ser fatal esta ordem de causas ou, melhor dizendo, dão o nome de destino a essa ordem — o que nos causa repulsa principalmente porque com tal palavra é costume nada se entender na realidade. Mas, quando Cícero nega que a ordem de todas as causas esta totalmente determinada (certíssima) e perfeitamente conhecida (notissima) da presciência de Deus, mais do que os estoicos detestamos nós essa opinião. Efetivamente, ou ele nega a existência de Deus, como tentou fazê-lo por interposta pessoa nos livros De natura deorum, ou então confessa a sua existência, mas nega a sua presciência do futuro, e nesse caso nada mais faz do que repetir o que disse o insensato em seu coração: Não há Deus. Efetivamente, quem não tem a presciência de todos os acontecimentos futuros certamente que não é Deus. Aí esta porque é que mesmo as nossas vontades apenas podem o que Deus quis e previu que pudessem.
     Portanto, o que elas podem, podem-no com certeza, e serão elas próprias que hão-de fazer o que devem fazer — porque o que elas poderão e terão a fazer, isso mesmo foi previsto por Aquele cuja presciência não se pode enganar.
     Por isso, se me agradasse aplicar o nome de “destino” a qualquer coisa, preferia dizer: “o destino aplica-se ao inferior, e ao superior aplica-se a vontade que o mantém submetido ao seu poder”, a retirar à vontade o arbítrio na ordem de causas a que os estoicos costumam apelidar, sem repugnância, de destino.


Se alguma forma de necessidade domina a vontade humana.
     Não há, pois, que temer a necessidade. Porque a temeram, os estoicos procuraram distinguir as causas dos seres de tal forma que subtraíram algumas a essa necessidade e lhe submeteram outras. Entre as causas que pretenderam subtrair à necessidade puseram eles as nossas vontades, com receio de as privarem de liberdade ao sujeitarem-nas à necessidade.
     Se de fato devemos apelidar de necessidade aquela força que não esta em nosso poder e que realiza, mesmo que o não queiramos, o que esta nas suas potencialidades (a necessidade da morte, por exemplo) é manifesto que a nossa vontade, que nos faz viver bem ou mal, não esta submetida a esta necessidade. Fazemos efetivamente muitas coisas que, se não quiséssemos, decerto não faríamos. E em primeiro lugar o próprio querer: se queremos, o querer existe, se não queremos, não existe porque não quereremos se não quisermos. Mas, se se definir a necessidade segundo a expressão “é necessário que tal coisa seja ou se faça assim” — não sei porque é que havemos de recear que ela nos vá tirar a liberdade da vontade. Certamente que não submetemos a vida de Deus nem a presciência de Deus à necessidade quando dizemos — é necessário que Deus viva sempre e tudo saiba com antecipação; como também se não minora o seu poder quando se diz que ele não pode morrer nem enganar-se. Certamente que não o pode — mas de tal modo que, se o pudesse, ele teria um poder menor. É pois corretamente que se chama onipotente quem todavia não pode nem morrer nem enganar-se. Realmente, chama-se onipotente porque faz o que quer e não porque suporta o que não quer: se isto lhe acontecesse, deixaria de ser onipotente. Não pode certas coisas precisamente porque é onipotente.
     Assim é também ao dizermos que é necessário, quando queremos, querer com livre arbítrio. Dizemos sem a menor dúvida a verdade, sem todavia sujeitarmos o nosso livre arbítrio a uma necessidade que suprime a liberdade. As nossas vontades são, pois, nossas; elas próprias fazem tudo o que fazemos quando queremos e que não se faria se não quiséssemos.
     Mas quando alguém, sem querer, suporta alguma coisa por vontade de outros homens — mesmo neste caso é a vontade que se exerce: embora não seja vontade do próprio é sempre vontade de um homem. Todavia, o poder é de Deus. (Porque, se se tratasse apenas de uma vontade que fosse incapaz de fazer o que quer — ela estaria impedida por uma vontade mais forte. Mesmo neste caso, a vontade não seria outra coisa mais que vontade, e não de outrem, mas de quem estivesse querendo, embora o seu desejo se não pudesse cumprir). Por isso é que tudo o que o homem suporta contra sua vontade, não deve atribuí-lo às vontades dos homens nem à dos anjos nem à de qualquer espírito criado, mas sim à vontade d’Aquele que concede o poder àqueles que são capazes de querer.
     Portanto, lá porque Deus previu o que viria a acontecer na nossa vontade, não se segue que nenhum poder tenha havido nela. Porque quem isso previu alguma coisa previu. Ora, se, prevendo o que se passaria na nossa vontade, ele previu não com certeza um puro nada, mas algo de real, sem dúvida conforme a sua própria previdência, alguma coisa depende da nossa vontade. Consequentemente, de modo nenhum somos obrigados nem a suprimir o livre arbítrio, mantendo a presciência de Deus, nem a negar a presciência de Deus (o que é sacrílego), mantendo o livre arbítrio. Pelo contrário: abraçamos uma e outra verdade, uma e outra confessamos fiel e sinceramente — uma para bem querer, a outra para bem viver. Porque vive-se mal se não se acreditar retamente em Deus. Longe de nós, portanto, negar, para permanecermos livres, a presciência d’Aquele por cujo poder somos ou seremos livres.
     Consequentemente, não é em vão que há leis, reprimendas, exortações, louvores e censuras. Tudo isto ele previu e vale tanto quanto ele previu que havia de valer. Também as preces valem para se obterem os bens que ele previu conceder aos que oram. É de toda a justiça que se estabeleçam prêmios para as boas ações e castigos para os pecados. E nem é por Deus ter previsto que havia de pecar que o homem peca. Pelo contrário, esta fora de dúvida que, quando peca, é ele, homem, que peca — porque Aquele cuja presciência é infalível, sabia já que não seria o destino, nem a fortuna, nem outra qualquer causa, mas que seria o próprio homem que iria pecar. E se Ele não quiser, certamente que não pecará — mas, se não quiser pecar, também isso Ele previu.


A Providência universal de Deus a cujas leis tudo esta submetido.
     Efetivamente este supremo e verdadeiro Deus que, com o seu Verbo e o seu Espírito Santo, são Três em Um;
     este Deus único, onipotente, criador e autor de toda a alma e de todo o corpo, de cuja beatitude participam todos os que em verdade e não em ilusão são felizes;
     que fez do homem um animal racional, composto de um corpo e de uma alma, e que não permitiu, quando este homem pecou, que ficasse impune, nem o abandonou sem misericórdia;
     que aos bons e aos maus deu o ser como às pedras, a vida vegetativa como às plantas, a vida sensitiva como aos animais, a vida intelectual apenas como aos anjos;
     de quem procedem toda a regra, toda a forma e toda a ordem;
     de quem procedem a medida, o número, o peso;
     de quem procede tudo o que tem uma natureza, tudo o que tem um gênero, tudo o que tem um preço, seja ele qual for;
     de quem procedem os gérmenes das formas, as formas dos gérmenes, o movimento das formas e dos gérmenes;
     que deu à carne a sua origem, a sua beleza, a sua saúde, a fecundidade da sua propagação, a disposição dos seus membros, a sua salutar harmonia;
     que à própria alma irracional deu memória, sensibilidade, instinto, e à racional deu ainda espírito, inteligência, vontade;
     que não deixou de conceder, não somente ao céu e à terra, não somente ao anjo e ao homem, mas também aos órgãos do mais pequenino e do mais desprezível dos animais, à mais pequena das penas da ave, à flor dos campos, à tolha da árvore, a harmonia das suas partes e como que uma certa paz — seria de todo inconcebível que Ele quisesse deixar o reino dos homens, as suas dominações e as suas sujeições fora das leis da sua Providência.


     “Mais vasto será o teu império se dominares o teu espírito ambicioso, do que se reunires a Líbia aos longínquos povos de Cádis e se os dois púnicos se te renderem.” (Horácio, Epist. 1, 1 , 36-37)


     “Deita fora a jactância: que são todos os homens senão homens? Mas, ainda mesmo que a perversidade do século admitisse que fossem mais honrados os melhores — nem mesmo assim se deveria ter em grande conta a honra humana: porque o fumo não tem peso.
     Todavia, mesmo nestas coisas, aproveitemos dos benefícios do Senhor nosso Deus. Consideremos tudo o que desprezaram, tudo o que suportaram, quantas paixões abafaram pela glória humana estes homens que a mereceram como recompensa de tais virtudes, e que isto nos ajude também a reprimir a nossa soberba. E, pois que aquela cidade, em que nos foi permitido reinar, dista tanto da de cá quanto o Céu dista da Terra, a vida eterna dista da alegria temporal, a sólida glória dista dos vãos louvores, a sociedade dos anjos dista da sociedade dos mortais, a luz d ’Aquele que fez o Sol e a Lua dista da luz do Sol e da Lua, — não julguem os cidadãos de tão grande pátria que alguma coisa de grande fizeram quando, para a conquistarem, algo fizeram de bom ou suportaram alguns males, quando os Romanos pela pátria terrestre que já possuíam fizeram tamanhas coisas e tamanhas coisas suportaram; principalmente porque a remissão dos pecados que congrega os cidadãos para a eterna pátria, tem alguma coisa a que, como uma sombra, se assemelha o asilo de Rômulo em que a impunidade concedida a todos os crimes reuniu a multidão com que ele fundaria esta cidade.”


     “Não são de fato as riquezas da Terra que nos tornarão felizes a nós ou a nossos filhos: — temos de as perder em vida, uma vez mortos serão elas levadas por quem desconhecemos ou talvez possuídas por quem não queremos. Deus é que faz a nossa felicidade e é a verdadeira riqueza das almas.”


     “Marco Régulo, general romano, esteve cativo entre os Cartagineses. Como estes preferiam que aqueles lhes devolvessem os seus prisioneiros a reterem em seu poder os romanos, enviaram Régulo com os seus embaixadores a Roma com o fim primordial de obterem a permuta. Mas antes fizeram-no jurar que voltaria para Cartago se nada conseguisse. Para lá se dirigiu, mas exortou o Senado a não realizar a troca dos cativos por estar convencido da sua desvantagem para o Estado Romano. Depois desta exortação, nenhum dos seus o obrigou a voltar para o inimigo. Mas ele cumpriu o que voluntariamente tinha jurado. Os cartagineses entregaram-no então a horríveis e requintadas torturas, dando-lhe a morte. Com efeito, meteram-no dentro de um apertado caixão dentro do qual tinha forçosamente de se manter de pé; pregaram nele agudíssimos pregos, de maneira que a parte nenhuma se podia encostar sem sofrer atrocíssimas dores e aniquilaram-no à força de vigílias. Sem dúvida que é justificadamente que se louva tamanha virtude, maior ainda que a sua infelicidade. (...)
     — Se M. Régulo, para não quebrar a fé jurada a crudelíssimos inimigos, voltou de Roma para junto deles respondendo, conforme consta, aos Romanos que pretendiam retê-lo, que, depois de ter sido escravo dos Africanos, não podia conservar lá a dignidade de um honesto cidadão; e se os Cartagineses o sujeitaram com gravíssimos suplícios à morte porque ele contra eles procedeu no Senado Romano — que suplícios se não devem desprezar para guardar a fé naquela pátria a cuja felicidade a mesma fé nos conduz? Ou
     que retribuirá ao Senhor pelos bens que dele recebeu, (Salmo CXV, 3)
o homem que, pela fé que lhe é devida, sofrer tormentos semelhantes aos que sofreu Régulo pela fé que devia a ferozes inimigos?
     — Como é que um cristão se atreverá a gabar-se da sua pobreza voluntária, abraçada para caminhar cá, mais à vontade, na peregrinação que conduz à Pátria em que Deus é a verdadeira riqueza — quando ouve ou lê que Lúcio Valério, falecido durante o seu consulado, era tão pobre que foi preciso pedir ao povo ofertas para assegurar a sua sepultura? Ou quando ouve ou lê que Quíncio Cincinato, dono de quatro geiras, que cultivava com as suas próprias mãos, foi afastado do arado para ser feito ditador, dignidade superior ao consulado, e que, depois de ter alcançado vitória sobre os inimigos, permaneceu na mesma pobreza?
     — Será que ele virá a gabar-se de ter feito alguma coisa de grande por não se deixar separar por nenhuma recompensa terrestre da sua comunhão com a pátria eterna — quando aprendeu que Fabrício não pôde ser retirado à Cidade Romana pelos enormes presentes oferecidos por Pirro, rei do Epiro, nem mesmo pela promessa de lhe dar a quarta parte do seu reino, e preferiu continuar pobre e simples cidadão na sua pátria?
     Com efeito, enquanto a república (res publica), isto é, a empresa do povo (res populi), a empresa da pátria (res patriae), a empresa comum (res communis), era opulentíssima, eram eles em suas casas de tal modo pobres que um deles, depois de ter sido duas vezes cônsul, foi expulso daquele senado de pobres sob a acusação censória de que lhe tinham sido encontradas dez libras de prata nuns vasos; eles próprios eram pobres, mas os seus triunfos enriqueciam o erário público; todos os cristãos que, num desígnio ainda mais elevado, põem as suas riquezas em comum, conforme o que esta escrito nos Atos dos Apóstolos — “que se distribua a cada um conforme as suas necessidades e que ninguém diga que alguma coisa lhe pertence, mas que tudo lhes seja comum” — será que não compreendem que não devem dar-se ares arrogantes ao praticarem esse preceito para obterem a sociedade dos Anjos quando aqueles homens fizeram quase outro tanto para conservarem a glória dos Romanos?
     Estes fatos e outros que tais que se podem achar na sua literatura, teriam adquirido semelhante notoriedade, seriam celebrados com tal renome, se o Império Romano, que se estendeu em todas as direções, não se tivesse desenvolvido devido a sucessos magníficos? Desta forma esse império, tão vasto, tão duradouro, célebre e glorioso pelas virtudes de tão grandes homens, foi para eles a recompensa a que aspiravam os seus esforços e oferece-nos a nós uma tão exemplar e necessária lição que sentiremos o espinho da vergonha se não praticarmos pela gloriosíssima Cidade de Deus as virtudes que eles praticaram, de forma um tanto semelhante, pela glória da cidade terrestre; e, se as praticarmos, não nos empertiguemos de soberba porque, como diz o Apóstolo,
     os sofrimentos do tempo presente são de nada comparados com a glória futura que em nós será revelada. (Rom., VIII, 18)
     Mas para alcançar a glória humana, no tempo presente, considera-se bastante digna a vida deles. Daí que, à luz do Novo Testamento, oculto no véu do Antigo (que nos sugere a adoração do único verdadeiro Deus, não para obtermos benefícios temporais e terrenos, concedidos pela divina Providência ao mesmo tempo a bons e a maus, mas sim para a vida eterna, para as recompensas perpétuas e para vivermos associados à Cidade Celeste), — à luz, repito, do Novo Testamento, os Judeus, que mataram Cristo, com toda a justiça foram submetidos para glória dos Romanos. Era justo, na verdade, que aqueles que procuraram e conseguiram a glória terrena pelas suas virtudes, sejam elas quais forem, triunfassem dos que pelos seus grandes vícios rejeitaram e mataram o dador da verdadeira glória e da cidade eterna.”


     “Para o que tem virtudes é uma grande virtude desprezar a glória, porque este desprezo Deus o vê mas escapa ao juízo dos homens. Na verdade, tudo o que fizer aos olhos dos homens para que vejam que despreza a glória, pode ser que por alguns suspeitosos seja isso tomado como maneira de procurar louvores, isto é, uma glória maior — sem poder mostrar-lhes que é diferente do que dele suspeitam. Mas o que despreza o juízo dos que o louvam, despreza também os juízos temerários dos que suspeitam; mas, se é verdadeiramente bom, não se desinteressa da salvação deles. É que, na realidade, é tão grande a justiça daquele cujas virtudes são um dom do Espírito de Deus, que ele até aos seus inimigos ama e ama-os de tal forma que chega a querer para os que o odeiam e o caluniam a sua emenda e a sua companhia, não na pátria terrestre mas na suprema. Quanto aos aduladores, embora não faça caso dos seus elogios, nem por isso despreza a sua afeição, nem quer enganar os que o louvam, não vá decepcionar os que lhe querem bem. Por isso é que faz ardentes esforços por que seja antes louvado Aquele que concede ao homem tudo o que nele merece ser louvado.
     Mas o que, desprezando embora a glória, é ávido de domínio, supera as bestas, quer pela crueldade quer pela luxúria. Tais foram certos Romanos. Tendo deixado de se preocupar com a reputação, não lhes faltou a paixão de domínio.”