A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Textos escolhidos (Os Pensadores), parte II – Denis Diderot

Editora: Abril Cultural
Tradução e notas: Marilena de Souza Chauí e J. Guinsburg
Opinião: ****
Páginas: 78

     Suplemento à viagem de Bougainville ou Diálogo entre A e B****

     “— Uma observação assaz constante é que as instituições sobrenaturais e divinas se fortalecem e se eternizam, transformando-se, com o tempo, em leis civis e nacionais; e que as instituições civis e nacionais se consagram, e degeneram em preceitos sobrenaturais e divinos.
     — Um fio a mais que juntamos ao laço com que nos apertam.”


     “(O nativo) Era pai de numerosa família. A chegada dos europeus, deixou cair olhares de desdém sobre eles, sem expressar espanto, nem medo, nem curiosidade. Abordaram-no; ele volveu-lhes as costas, retirou-se para sua cabana. Seu silêncio e seu cuidado revelavam muito bem seu pensamento: gemia, no íntimo, sobre os belos dias de seu país, eclipsados. À partida de Bougainville, quando os habitantes acorriam em multidão à margem, agarravam-se ao vestuário dele, apertavam seus camaradas entre os braços, e choravam, o velho avançou com ar severo e disse:
      “Chorai, infelizes taitianos! chorai; mas que seja pela chegada, e não pela partida desses homens ambiciosos e malvados: um dia, vós os conhecereis melhor. Um dia, voltarão, com o pedaço de madeira que vedes preso na cintura deste, em uma mão, e com o ferro que pende à ilharga daquele, em outra, para vos encadear, vos degolar, ou vos sujeitar às suas extravagâncias e a seus vícios; um dia servireis às ordens deles, tão corrompidos, tão vis, tão infelizes como eles. Mas eu me consolo; toco ao fim de minha carreira; e a calamidade que vos anuncio, eu não a verei. Ó taitianos! meus amigos! haveria um meio de escapardes a um funesto porvir; mas preferiria antes morrer a vô-lo aconselhar. Que eles se afastem, e que vivam”.
      Depois, dirigindo-se a Bougainville, acrescentou: “E tu, chefe dos bandidos que te obedecem, afasta prontamente teu navio de nossa costa: nós somos inocentes, nós somos felizes; e tu só podes prejudicar nossa felicidade. Nós seguimos o puro instinto da natureza; e tu tentaste expungir de nossas almas seu caráter. Aqui tudo é de todos; e tu nos pregaste não sei que distinção entre o teu e o meu. Nossas filhas e nossas mulheres nos são comuns; tu partilhaste esse privilégio conosco; e tu vieste acender nelas furores desconhecidos. Elas se tornaram loucas em teus braços; e tu te tornaste feroz entre os delas. Elas começaram a odiar-se; vós vos degolastes por elas; e elas voltaram a nós manchadas de vosso sangue. Nós somos livres; e eis que tu fincaste em nosso solo o título de nossa futura escravidão. Tu não és nem deus, nem demônio: quem és então, para fazer escravos? Oru! tu que entendes a língua desses homens aí, dize a todos nós, como disseste a mim, o que eles escreveram nesta lâmina de metal: ‘Este país é nosso.’ Este país é teu! E por quê? Porque puseste o pé nele? Se um taitiano desembarcasse um dia em vossas costas, e se gravasse numa de vossas pedras ou na casca de uma de vossas árvores: ‘Este país é dos habitantes do Taiti’, o que acharias? Tu és o mais forte! E o que tem isso? Quando te tiraram uma das desprezíveis bagatelas de que tua embarcação está cheia, bradaste, te vingaste; e no mesmo instante projetaste, no fundo de teu coração, o roubo de todo um país. Tu não és escravo: preferirias a morte a sê-lo, e queres a nos sujeitar. Crês portanto que o taitiano não sabe defender sua liberdade e morrer? Aquele de quem queres te apoderar como de um bruto, o taitiano, é teu irmão. Vós sois dois filhos da natureza; que direito tens tu sobre ele que ele não tenha sobre ti? Tu vieste; nós nos atiramos sobre tua pessoa? Pilhamos o teu navio? Nós te prendemos e te expusemos às flechas de nossos inimigos? Nós te associamos em nossos campos ao trabalho de nossos animais? Nós respeitamos nossa imagem em ti. Deixa-nos os nossos costumes; são mais sábios e mais honestos que os teus; nós não queremos trocar o que chamas nossa ignorância por tuas inúteis luzes. Tudo o que nos é necessário e bom, nós o possuímos. Somos nós dignos de desprezo, porque não soubemos criar para nós necessidades supérfluas? Quando temos fome, temos o que comer; quando temos frio, temos com que nos vestir. Tu entraste em nossas cabanas, o que faltava nelas, em tua opinião? Persegue até onde quiseres isso que denominas comodidades da vida; mas permite a seres sensatos que se detenham, quando não teriam a obter, da continuação de seus penosos esforços, senão bens imaginários. Se nos persuades a transpor o estreito limite da necessidade, quando findaremos de trabalhar? Quando fruiremos? Nós tornamos a soma de nossas fadigas anuais e diárias menor possível, porque nada nos parece preferível ao repouso. Vai a teu país te agitar, te atormentar quanto quiseres; deixa-nos descansar: não nos metas na cabeça nem tuas necessidades factícias, nem tuas virtudes quiméricas. Observa esses homens; vê como são eretos, sadios e robustos. Observa essas mulheres; vê como são eretas, sadias, frescas e belas. Toma este arco, é o meu; chama em tua ajuda um, dois, três, quatro de teus camaradas, e tenta distendê-lo. Eu o distendo sozinho. Eu lavro a terra; escalo a montanha; atravesso a floresta; percorro uma légua da planície em menos de uma hora. Teus jovens companheiros tiveram dificuldade em me acompanhar; e eu tenho oitenta anos passados. Ai desta ilha! Ai dos taitianos presentes, e de todos os taitianos vindouros, desde o dia em que tu nos visitaste! Nós não conhecíamos senão uma doença: aquela à qual o homem, o animal e a planta foram condenados, a velhice; e tu nos trouxeste outra: infectaste nosso sangue. Teremos talvez de exterminar com nossas próprias mãos nossas filhas, nossas mulheres, nossas crianças; os que se aproximaram de tuas mulheres; as que se aproximaram de teus homens. Nossos campos serão molhados com o sangue impuro que passou de tuas veias às nossas; ou nossos filhos, condenados a nutrir e a perpetuar o mal que passaste aos pais e às mães, e que transmitirão para sempre a seus descendentes. Infelizes! Tu serás culpado, ou das devastações que se seguirão às funestas carícias dos teus, ou dos assassínios que cometeremos para sustar-lhes o veneno. Tu falas de crime! Tens ideia de outro crime maior do que o teu? Qual é entre os teus o castigo de quem mata o vizinho? A morte pelo ferro. Qual é entre os teus o castigo do covarde que o envenena? A morte pelo fogo: compara teu crime a este último; e dize-nos, envenenador de nações, o suplício que mereces. Há apenas um momento, a jovem taitiana se abandonava aos transportes, aos abraços do jovem taitiano; esperava com impaciência que a mãe (autorizada pela idade núbil) lhe erguesse o véu e lhe pusesse a nu o colo. Ela sentia-se orgulhosa por excitar os desejos, e por atrair os olhares amorosos do desconhecido, de seus parentes, de seu irmão; aceitava sem terror e sem vergonha, em nossa presença, em meio de um círculo de inocentes taitianos, ao som das flautas, entre as danças, as carícias daquele que seu jovem coração e a voz secreta de seus sentidos lhe designavam. A ideia de crime e o perigo da moléstia entraram contigo entre nós. Nossos gozos, outrora tão doces, são acompanhados de remorsos e de horror. Esse homem negro, que está perto de ti, que me escuta, falou a nossos rapazes; não sei o que disse a nossas filhas; mas nossos rapazes hesitam; mas nossas filhas enrubescem. Embrenha-te, se quiseres, na floresta escura na companhia perversa de teus prazeres; mas concede aos bons e simples taitianos que se reproduzam sem pejo, à face do céu e à plena luz. Que sentimento mais honesto e mais grandioso poderias colocar no lugar daquele que nós lhes inspiramos, e que os anima? Eles pensam que o momento de enriquecer a nação e a família com um novo cidadão é chegado, e se glorificam com isso. Eles comem para viver e crescer; eles crescem para multiplicar-se, e não veem nisso nem vício, nem vergonha. Escuta a série de tuas perversidades. Apenas te mostraste entre eles, e eles tornaram-se ladrões. Apenas desceste em nossa terra e ela fumegou de sangue. O taitiano que correu a teu encontro, que te acolheu, que te recebeu gritando: Taio! Amigo, amigo, tu o mataste. E por que o mataste? Porque ele fora seduzido pelo brilho de teus pequenos ovos de serpente. Ele te dava seus frutos; ele te oferecia sua mulher e sua filha; ele te cedia sua cabana: e tu o mataste por um punhado desses grãos, que ele apanhava sem te perguntar. E este povo? Ao fragor de tua arma mortífera, o terror se apoderou dele; e ele se refugiou na montanha. Mas crê que não tardaria descer; crê que num instante, sem mim, teríeis perecido todos. Ah! Por que os aplaquei? Por que os contive? Por que os contenho ainda neste momento? Eu o ignoro; pois não mereces nenhum sentimento de piedade; pois tens uma alma feroz que não a experimenta nunca. Tu passeaste, tu e os teus, em nossa ilha; tu foste respeitado; tu desfrutaste de tudo; tu não deparaste em teu caminho nem barreira, nem recusa: convidavam-te; tu te assentavas; desdobravam à tua frente a abundância do país. Quiseste as nossas jovens? Exceto as que não dispõem ainda do privilégio de exibir o rosto e o colo, as mães te apresentaram as outras totalmente nuas; eis-te possessor da tenra vítima do dever hospitaleiro; juncou-se, para ela e para ti, a terra de folhas e de flores; os músicos afinaram seus instrumentos; nada perturbou a doçura, nem estorvou a liberdade de tuas carícias, nem das delas. Cantou-se o hino, o hino que te exortava a ser homem, que exortava nossa filha a ser mulher, e mulher complacente e voluptuosa. Dançou-se em redor de teu leito; e foi ao sair dos braços dessa mulher, após ter provado sobre o seio dela a mais doce ebriedade, que lhe mataste o irmão, o amigo, o pai, talvez. Agiste pior ainda; observa por esse lado; vê esse contorno eriçado de flechas; essas armas que só haviam ameaçados nossos inimigos, vê como estão voltadas contra nossos próprios filhos: vê as desgraçadas companheiras de nossos prazeres; vê a tristeza delas; vê a dor de seus pais; vê o desespero de suas mães: é aí que se acham condenadas a perecer ou por nossas mãos, ou pelo mal que lhes deste. Afasta-te, a menos que teus olhos cruéis se comprazam com espetáculos de morte: afasta-te; vai, e possam os mares culpados, que te pouparam em tua viagem, absorver-te e nos vingar, engolindo-te antes de teu retorno! E vós, taitianos, reentrai em vossas cabanas, reentrai todos; e que estes indignos estrangeiros não ouçam à sua partida senão a onda que muge, e não vejam senão a espuma com que seu furor embranquece a margem deserta”!


     “— Se as leis são boas, os costumes são bons; se as leis são más, os costumes são maus; se as leis, boas ou más, não são observadas, a pior condição de uma sociedade, não há quaisquer costumes. Ora, como quereis que leis sejam observadas quando elas se contradizem? Percorrei a história dos séculos e das nações, tanto antigas como modernas, e encontrareis os homens sujeitos a três códigos, o código da natureza, o código civil e o código religioso, e coagidos a infringir alternadamente os três códigos que nunca estiveram de acordo; daí decorre que não houve em nenhum país, como Oru adivinhou quanto ao nosso, nem homem, nem cidadão, nem religioso.
     — De onde concluireis, sem dúvida, que, baseando a moral nas relações eternas, que subsistem entre os homens, a lei religiosa torna-se talvez supérflua; e que a lei civil deve ser apenas a enunciação da lei da natureza.
     — E isso, sob pena de multiplicar os maus, em vez de produzir os bons.
     — Ou que, se julgamos necessário conservar as três, cumpre que as duas últimas não sejam mais do que cópias rigorosas da primeira, que trazemos gravada no fundo de nossos corações, e que será sempre a mais forte.
     — Isso não é exato. Não trazemos ao nascer senão uma similitude de organização com outros seres, as mesmas necessidades, a atração para os mesmos prazeres e uma aversão comum às mesmas penas: eis o que constitui o homem como ele é, e deve fundamentar a moral que lhe convém.”


     “— E o ciúme?
     — Paixão de um animal indigente e avaro que teme falhar; sentimento injusto do homem; consequência de nossos falsos costumes, e de um direito de propriedade estendido sobre um objeto sensível, pensante, com vontade e livre.
     — Assim, o ciúme, segundo vós, não está na natureza?
     — Não é o que digo. Vícios e virtudes, tudo está igualmente na natureza.
     — O ciúme é sombrio.
     — Como o tirano, porque tem consciência disso.”


     “B. — A natureza, indecente se quereis, impele indistintamente um sexo para o outro: e, em um estado do homem bruto e selvagem, que se concebe, mas que não existe talvez em nenhuma parte...
     A. — Nem mesmo no Taiti?
     B. — Não... o intervalo que separaria um homem de uma mulher seria transposto pelo mais apaixonado. Se eles se esperam, se eles se esquivam, se eles se perseguem, se eles se evitam, se eles se atacam, se eles se defendem, é que a paixão, desigual em seus progressos, não se lhes aplica com a mesma força. Daí sobrevém que a volúpia se espalha, se consome e se extingue de um lado, quando começa apenas a elevar-se do outro, e que ambos permanecem tristes. Eis a imagem fiel do que se passaria entre dois seres jovens, livres e perfeitamente inocentes. Mas quando a mulher conheceu, pela experiência ou pela educação, as consequências mais ou menos cruéis de um momento doce, seu coração estremece à aproximação do homem. O coração do homem não estremece absolutamente; seus sentidos comandam, e ele obedece. Os sentidos da mulher se explicam, e ela receia escutá-los. Incumbe ao homem distraí-la de seu receio, inebriá-la e seduzi-la. O homem conserva todo seu impulso natural para a mulher; o impulso natural da mulher para o homem, diria um geômetra, está na razão composta da direta da paixão e da inversa do temor; razão que se complica com uma multidão de elementos diversos em nossas sociedades; elementos que concorrem quase todos a aumentar a pusilanimidade de um sexo e a duração da perseguição do outro. É uma espécie de tática em que os recursos da defesa e os meios do ataque marcharam na mesma linha. Consagrou-se a resistência da mulher; atribuiu-se ignomínia à violência do homem; violência, que seria apenas ligeira injúria no Taiti, e que se torna crime em nossas cidades.
     A. — Mas como é que aconteceu que um ato cujo alvo é tão solene, e ao qual a natureza nos convida pela atração mais poderosa; que o maior, o mais doce e o mais inocente dos prazeres viesse a converter-se na fonte mais fecunda de nossa depravação e de nossos males?
     B. — Oru deu-o a entender dez vezes ao capelão: ouvi-o pois outra vez, e procurai retê-lo.
     É pela tirania do homem, que converteu a posse da mulher em propriedade.
     Pelos costumes e pelos usos, que sobrecarregaram de condições a união conjugal.
     Pelas leis civis, que sujeitaram o casamento a uma infinidade de formalidades.
     Pela natureza de nossa sociedade, onde a diversidade das fortunas e das posições instituiu conveniências e inconveniências.
     Por uma contradição estranha e comum a todas as sociedades subsistentes, onde o nascimento de uma criança, sempre encarada como um acréscimo de riqueza pela nação é muitas vezes e mais seguramente ainda um acréscimo de indigência na família.
     Pelas velhas concepções políticas dos soberanos, que referiram tudo aos próprios interesses e à própria segurança.
     Pelas instituições religiosas, que ligaram os nomes de vícios e virtudes a ações que não eram suscetíveis de qualquer moralidade.
     Como estamos longe da natureza e da felicidade! O império da natureza não pode ser destruído: em vão procurar-se-á contrariá-lo por meio de obstáculos, ele há de perdurar. Escrevei quanto vos aprouver sobre tábuas de bronze, para me servir das expressões do sábio Marco Aurélio, que a fricção voluptuosa de dois intestinos constitui crime, o coração do homem ficará comprimido entre a ameaça de vossa inscrição e a violência de seus pendores. Mas esse coração indócil não cessará de reclamar; e cem vezes, no curso da vida, vossos caracteres aterradores desaparecerão a nossos olhos. Gravai sobre o mármore: Tu não comerás nem do quebrantosso, nem do abutre; tu não conhecerás senão tua mulher; tu não serás marido de tua irmã; mas não esquecereis de aumentar os castigos à proporção da extravagância de vossas proibições; tornar-vos-eis ferozes, e não conseguireis de modo algum me desnaturar.
     A. — Como o código das nações seria curto, se o conformassem rigorosamente ao da natureza! Quantos erros e vícios poupados ao homem!
     B. — Quereis saber a história abreviada de quase toda nossa miséria? Ei-la. Existia um homem natural: introduziu-se dentro desse homem um homem artificial; e surgiu na caverna uma guerra civil que dura toda a vida. Ora o homem natural é o mais forte; ora é derrubado pelo homem moral e artificial; e, em um e outro caso, o triste monstro é dilacerado, atanazado, atormentado, estendido sobre a roda; sem cessar gemente, sem cessar infeliz, seja porque um falso entusiasmo de glória o arrebata e o embriaga, seja porque uma falsa ignomínia o curva e o abate. Entretanto, há circunstâncias extremas que reconduzem o homem à sua primitiva simplicidade.
     A. — A miséria e a moléstia, dois grandes exorcistas.
     B. — Vós os nomeastes. Com efeito, no que se convertem então todas essas virtudes convencionais? Na miséria, o homem não tem remorsos; e, na doença, a mulher não tem pudor.
     A. — Já notei isso.
     B. — Mas outro fenômeno que tampouco vos terá escapado é que o retorno do homem artificial e moral acompanha passo a passo os progressos do estado de doença para o estado de convalescença e do estado de convalescença para o estado de saúde. O momento em que a enfermidade cessa é aquele em que a guerra intestina recomeça, e quase sempre com desvantagem para o intruso.
     A. — É verdade. Eu mesmo verifiquei que o homem natural dispunha na convalescença de um vigor funesto ao homem artificial e moral. Mas, enfim, dizei-me, deve-se civilizar o homem, ou abandoná-lo a seu instinto?
     B. — Preciso responder-vos claramente?
     A. — Sem dúvida.
     B. — Se vos propondes a ser seu tirano, civilizai-o; envenenai-o o melhor possível com uma moral contrária à natureza; suscitai-lhe entraves de toda espécie; atrapalhai seus movimentos com mil obstáculos; atribuí-lhe fantasmas que o atemorizem; eternizai a guerra na caverna, e que o homem natural permaneça aí sempre encadeado debaixo dos pés do homem moral. Quereis vê-lo feliz e livre? Não vos imiscuais em seus assuntos: bastantes incidentes imprevistos hão de conduzi-lo à luz e à depravação; e ficai para sempre convencido que não é por vós, mas por eles, que esses sábios legisladores vos petrificaram e amaneiraram como vós o sois. Invoco o testemunho de todas as instituições políticas, civis e religiosas: examinai-as profundamente; e, ou me engano muito, ou vereis nelas a espécie humana dobrada de século em século ao jugo que um punhado de velhacos esperava impor-lhe. Desconfiai daquele que quer estabelecer a ordem. Ordenar é sempre tornar-se senhor dos outros, incomodando-os.”


     “Falaremos contra as leis insensatas até que sejam reformadas; e, entrementes, nos submeteremos a elas. Aquele que, por sua autoridade privada, infringe uma lei má, autoriza a qualquer outro a infringir as boas. Há menos inconvenientes em ser louco entre loucos, do que ser sábio sozinho. Digamos a nós próprios, gritemos incessantemente que a vergonha, o castigo e a ignomínia foram atribuídos a ações inocentes em si mesmas; mas não as cometamos, porque a vergonha, o castigo e a ignomínia são os maiores de todos os males.”


Paradoxo sobre o comediante****

     “— O comediante por natureza é amiúde detestável e às vezes excelente. Em qualquer gênero que seja, desconfiai da mediocridade constante. Qualquer que seja o rigor com que um estreante seja tratado, é fácil pressentir seus triunfos vindouros. As vaias sufocam apenas os ineptos. E como formaria a natureza sem a arte um grande comediante, já que nada se passa exatamente no palco como na natureza, e que os poemas dramáticos são todos compostos segundo um certo sistema de princípios? E como seria um papel desempenhado da mesma maneira por dois atores diferentes, se no escritor mais claro, mais preciso, mais enérgico, as palavras não são e não podem ser senão signos aproximados de um pensamento, de um sentimento, de uma ideia; signos cujo valor o movimento, o gesto, o tom, a fisionomia, os olhos, a circunstância dada completam?”


     “Continuai mais do que nunca apegado à vossa máxima: Não vos expliqueis nunca se quereis vos entender.”


     “Cabe ao sangue-frio temperar o delírio do entusiasmo.”


     “Já se disse que o amor, que tira o espírito aos que o possuem, concede-o aos que não o possuem; isto significa, em outros termos, que torna uns sensíveis e tolos, e outros frios e audaciosos.”


     “PRIMEIRO — Já se disse que os comediantes não têm nenhum caráter, porque, representando todos, perdem aquele que a natureza lhes deu; que se tornam falsos, como o médico, o cirurgião e o açougueiro se tornam duros. Creio que se tomou a causa pelo efeito, e que eles não servem para interpretar todos porque não têm nenhum.
     SEGUNDO — Ninguém se torna cruel porque é carrasco; mas a gente se faz carrasco porque é cruel.”


     “Quanto mais as ações são fortes e as palavras simples, mais eu as admiro.”


     “Os comediantes impressionam o público, não quando estão furiosos, mas quando interpretam bem o furor. Nos tribunais, nas assembleias, em todos os lugares onde se quer ficar senhor dos espíritos, finge-se ora a cólera, ora o temor, ora a piedade, a fim de levar os outros a esses sentimentos diversos. Aquilo que a própria paixão não conseguiu fazer, a paixão bem imitada o executa.”


     “Se alguém me assegura que um homem é avaro, terei dificuldade em crer que ele produza algo de grande. Esse vício apouca o espírito e estreita o coração. As desgraças públicas nada significam para o avaro. Às vezes, rejubila-se com elas. É duro. Como há de elevar-se a algo de sublime? Está incessantemente curvado sobre um cofre forte. Ignora a velocidade do tempo e a brevidade da vida. Concentrado em si mesmo, é estranho à beneficência. A felicidade de seu semelhante nada representa a seus olhos, em comparação com um pedacinho de metal amarelo. Jamais conheceu o prazer de dar a quem carece, de aliviar quem sofre, e de chorar com quem chora. É mau pai, mau filho, mau amigo, mau cidadão. Na necessidade de escusar-se de seu vício, formou para si um sistema que imola todos os deveres à sua paixão. Se se propusesse pintar a comiseração, a liberdade, a hospitalidade, o amor à pátria, o amor ao gênero humano, onde encontraria as cores necessárias? Ele pensou, no fundo do coração, que tais qualidades não passam de extravagâncias e loucuras.
     Após o avaro, cujos meios todos são vis e mesquinhos, e que não ousaria sequer tentar um grande crime para conseguir dinheiro, o homem de gênio mais estreito e mais capaz de praticar males, o menos tocado pelo verídico, pelo bom e pelo belo, é o supersticioso. Após o supersticioso, é o hipócrita. O supersticioso possui a vista perturbada; o hipócrita, o coração falso.”


     ““Não há talvez na espécie humana inteira dois indivíduos que disponham de alguma semelhança aproximada. A organização geral, os sentidos, a figura externa, as vísceras, têm sua variedade. As figuras, os músculos, os sólidos, os fluidos, têm sua variedade. O espírito, a imaginação, a memória, as ideias, as verdades, os prejuízos, os alimentos, os exercícios, os conhecimentos, as condições, a educação, os gostos, a fortuna, os talentos, têm sua variedade. Os objetos, os climas, os costumes, as leis, os usos, as práticas, os governos, as religiões, têm sua variedade. Como seria, portanto, possível que dois homens possuíssem precisamente o mesmo gosto, ou as mesmas noções do verdadeiro, do bom e do belo? A diferença da vida e a variedade dos acontecimentos bastariam por si para estabelecê-la no julgamento.
     “Não é tudo. No mesmo homem, tudo está em vicissitude perpétua, quer o consideremos no físico, quer o consideremos no moral; a pena sucede ao prazer, o prazer à pena; a saúde à moléstia, a moléstia à saúde. É só pela memória que somos um e o mesmo indivíduo para os outros e para nós próprios. Não me resta, quiçá, na idade em que estou, uma única molécula do corpo que trouxe ao nascer. Ignoro o termo prescrito de minha duração; mas, quando vier o momento de devolver este corpo à terra, não restará talvez uma só das moléculas que ora ele tem. A alma em diferentes períodos da vida não se assemelha muito mais. Eu balbuciava na infância; eu julgo raciocinar presentemente; mas, enquanto raciocino, o tempo passa e volto ao balbucio. Tal é minha condição e a de todos. Como seria, pois, possível que houvesse um só entre nós que conservasse durante toda a existência o mesmo gosto, e que proferisse os mesmos julgamentos sobre o verdadeiro, o bom e o belo? As revoluções, causadas pela aflição e pela perversidade dos homens, bastariam por si para alterar seus julgamentos.
      “O homem estará, portanto, condenado a não concordar nem com seus semelhantes, nem consigo próprio, sobre os únicos objetos que lhe importam conhecer, a verdade, a bondade, a beleza? Serão essas coisas locais, momentâneas e arbitrárias, palavras destituídas de senso? Não haverá nada que seja tal? Uma coisa será verdadeira, boa e bela, quando me parece sê-lo? E todas as nossas disputas acerca do gosto resolver-se-iam enfim nesta proposição: nós somos, vós e eu, dois seres diferentes; e eu próprio nunca sou em um instante o que eu era em outro?”
     Aqui Aristo fez uma pausa, a seguir recomeçou:
      “É certo que não haverá termo para nossas disputas, enquanto cada um tomar a si mesmo como modelo e como juiz. Existirão tantas medidas quantos homens, e o mesmo homem contará tantos módulos diferentes quantos períodos sensivelmente diferentes em sua existência.”


Diálogo de um filósofo com a marechal de...****

     “(...) MARECHALA — Isso é de morrer de riso.
     CRUDELI — Para mim, Senhora Marechala; mas para vós, vosso Deus não admite chalaças.
     MARECHALA — Tendes razão.
     CRUDELI — Senhora Marechala, é muito fácil pecar gravemente contra vossa lei.
     MARECHALA — Concordo.
     CRUDELI — A justiça que decidirá de vossa sorte é muito rigorosa.
     MARECHALA — É certo.
     CRUDELI — E se acreditais nos oráculos de vossa religião acerca do número de eleitos, ele é bem pequeno.
     MARECHALA — Oh! é que não sou jansenista; vejo a medalha apenas por seu reverso consolador: o sangue de Jesus Cristo cobre um grande espaço e meus olhos; e me pareceria muito singular que o diabo, que não entregou seu filho à morte, tivesse no entanto a melhor parte.”

Um comentário:

Doney Stinguel disse...

O “Diálogo do Capelão e de Oru (III)” não veio para o blog por conta do tamanho, mas é particularmente arguto.